Walker’s Haute Route – As impressões sobre o nosso primeiro trekking

Alguns meses se passaram, e agora me sinto a vontade pra falar um pouco mais sobre a nossa experiência fazendo trekking nos Alpes suíços, mais precisamente na Walker's Haute Route. Foram 10 dias longos e intensos, percorrendo mais de 135…

Alguns meses se passaram e agora me sinto a vontade pra falar um pouco mais sobre a nossa experiência fazendo trekking nos Alpes suíços, mais precisamente na Walker’s Haute Route. Foram 10 dias longos e intensos, percorrendo mais de 135 quilômetros, de subidas e descidas, desfiladeiros, geleiras, cabanas, abrigos, pequenas cidades e tudo que você pode imaginar. Nesse post, a gente vai tentar listar tudo que a gente aprendeu fazendo o trekking pela Walker’s Haute Route.

PLANEJAMENTO, PLANEJAMENTO E MAIS PLANEJAMENTO

Primeiro de tudo. Planejar um trekking de dezenas ou centenas de quilômetros por conta própria não foi uma tarefa fácil. Agora imagina fazer tudo no sentindo contrário ao que normalmente todo mundo faz? A maioria das informações que eu encontrei na internet fazia referência ao itinerário clássico (de Chamonix até Zermatt). Eu tinha sempre que inverter a informação pra adequar ao nosso itinerário, sem contar que não encontrei nada em português mesmo para a rota clássica.

Nosso roteiro pela Suíça - Trekking pela Walker's Haute Route
Cidade de Chamonix na base do Mont Blanc, o nosso último ponto do trekking pela Walker’s Haute Route.

Além disso, a maioria da informação que a gente encontrou estava fragmentada em inúmeros blogs e sites por todo lado na internet. Achava alguma coisa sobre um refúgio específico em um site e o que faltava em outro. Foi assim com quase tudo. O guia (livro) mais utilizado “Chamonix to Zermatt: The Classic Walker’s Haute Route” foi de pouco ou quase nenhuma ajuda. Mesmo sendo muito completo, às vezes as informações eram confusas. A gente acabou usando ele somente como referência e para tirar dúvidas pontuais.

RESERVAR OS REFÚGIOS E CABANAS NÃO FOI NADA FÁCIL

Não foi nada fácil reservar a maioria dos refúgios e cabanas nesse trekking. Algumas possuíam site com sistema de reserva online. Até aí tudo bem… mas a maioria ou a gente tinha que mandar um e-mail que quase nunca era respondido, ou ligar. Sim ligar pra Suíça, falar com uma pessoa suíça e tratar sobre assuntos suíços… A sorte era que a gente fala Francês, então não foi muito complicado, mas imagina pra quem não fala…

Cabane de Prafleuri (2662 m).

Mas mesmo assim, tinha algumas cabanas que nem telefone atendiam. Por exemplo, a Cabane de Prafleuri, a gente ficou quase 2 meses tentando falar com eles por telefone. Faltando algumas semanas pro trekking, foi aí que a gente conseguiu fazer a reserva. Foi por pouco! A mesma coisa para a Refuge des Grands, perto de Chamonix. Tive que ligar para uma pessoa, que me passou o telefone de outra, que finalmente me deu o telefone da pessoa correta pra ligar e fazer a reserva.

NUNCA, MAS NUNCA PENSE NO DESTINO DURANTE A TRILHA

Essa foi a lição mais importante que a gente aprendeu durante o trekking pela Walker’s Haute Route. Lembro como se fosse hoje. No nosso primeiro dia (Zermatt até a Cabane Europahut), em uma determinada parte da trilha, a gente conseguiu ver a cabana, pequena, no alto de uma montanha. Lembro que a gente ficou super feliz. Estávamos quase lá! Mas a verdade é que ainda demorou umas 2 horas de trilha e nesse dia a gente já tinha percorrido quase 18 km até ali. Os últimos quilômetros da trilha foram horríveis e intermináveis.

Foi lá pelo quinto dia (Zinal até a Cabane de Moiry) que a gente desenvolveu a nossa técnica dos objetivos curtos. A Cabane de Moiry ficava no alto de uma montanha e dava pra ver ela já de longe na trilha. Já vacinados, começamos a focar em objetivos mais próximos. Esquecemos a Cabana e a cada 200 metros, mais ou menos, a gente definia o próximo objetivo. Tiro e queda. Esquecendo a Cabana, tudo ficou melhor. A gente focou melhor na trilha e a caminhada foi mais prazerosa. Quando a gente chegou na Cabana, foi só alegria (só que não – dá uma olhada aqui).

Daqui já dava pra ver a Cabane de Moiry (mais para o canto esquerdo superior da foto), as aparências enganam. Ainda faltava muito chão pela frente.

Isso tudo pra dizer que o controle da mente foi muito mais importante do que o preparo físico em si. Não me leve a mal. Preparo físico é mais que importante em um trekking dessa natureza, mas saber lidar com as suas expectativas, desejos, vontades, com imprevistos, vai fazer o seu trekking muito mais agradável e você vai poder desfrutar da trilha como ela merece.

LEVE SOMENTE O QUE FOR REALMENTE USAR

Ahhhh… Acho que essa foi a lição mais valiosa de todas. Mesmo se planejando pra levar o suficiente, ainda pecamos em alguns pontos. Como a gente ia passar alguns dias sem fazer trekking, a gente levou roupas e calçados que a gente só ia usar nesses poucos dias. O resultado. A gente teria que carregar peso extra durante mais de 10 dias simplesmente pra nada.

Chegada ao nosso primeiro passe. O peso da mochila já estava atrapalhando bastante.

A conta chegou no terceiro dia de trekking, quando chegamos em Gruben. Estávamos exaustos e com os joelhos arrebentados. As mochilas estavam mais pesadas do que deviam e a gente teve que tomar uma decisão muito difícil, mas muito importante pra continuar. Resolvemos tirar tudo que não precisaríamos nos próximos dias. Ficaram pra trás, tênis, camisas, calças e muito mais. Nos próximos dias, a dor no joelho continuava, mas o conforto de uma mochila mais leve valeu cada coisa que a gente deixou em Gruben.

Todo mundo é igual perante o trekking

Não sei dizer em quais outras situações eu vivi algo do tipo, mas quando fazemos trilhas, todo mundo trata todo mundo como se fossem irmãos em uma causa. É passar por alguém para ouvir um bom e sorridente bom dia. É dar e pedir informações e tentar ajudar o próximo como se fosse um membro da família. Parece que todo mundo quer o bem de todos. Todo mundo quer ajudar e ser educado. Foi isso que a gente viu em praticamente todos os dias no trekking pela Walker’s Haute Route.

A maioria das fotos que a gente tirou juntos (como na foto acima) foi tirada por alguma pessoa que a gente encontrou na trilha.

Era entrar em um refúgio que o assunto já começava. A gente compartilhava informações do que a gente já tinha vivido anteriormente e ouvia conselhos do que a gente iria encontrar mais pra frente. Talvez fazer a trilha no sentido inverso intensificou esse processo de troca de informações. A gente sempre se oferecia pra tirar fotos das pessoas (muitos fazem esse trekking sozinhos). Quando a condição climática preocupava, conversávamos com as pessoas e recebíamos as melhores dicas: “não vai por lá”, “pega a outra trilha”, “vocês são jovens, vão conseguir sem nenhum problema”, e assim por diante. É claro que tinha momentos que algumas pessoas não eram bem encaradas. Nesses casos, a gente tentava ser o mais educado possível. Entretanto, foram casos isolados.

Alguns EFEITOS SECUNDÁRIOS DO TREKKING

Trekking é uma atividade que exige presença. É um processo de batalha mental e corporal com você mesmo. Isso faz com o que você acabe vivendo cada instante do caminho. Seu corpo está atento a tudo, registrando cada passagem, cada palavra, cada curva, cada estímulo, cada tudo. Não é à toa que quando você volta de viagem, consegue lembrar com detalhes de tudo que viveu. Se duvidar até o que comeu. Experimenta lembrar o que você comeu faz dois dias, e você vai me entender o quão poderoso esse tipo de experiência é para o corpo e mente.

Isso é incrível, mas pra mim, teve alguns efeitos estranhos. Um dos efeitos colaterais disso é que nos dias seguintes ao fim do trekking e depois quando já estava em casa, sonhava constantemente que estava em uma montanha, ou na própria trilha, tendo que subir novamente os passes que a gente tinha feito dias atrás.

Conclusão sobre o nosso primeiro trekking

Hoje, alguns meses depois de ter feito o trekking (escrevo a conclusão desse post durante a quarentena!), não vejo a hora de voltar e fazer a mesma coisa, aplicar tudo que aprendi durante a nossa jornada e com sede de aprender mais ainda, de viver novas emoções, de conversar com novas pessoas, de desfrutar da liberdade que só um trekking é capaz de trazer.

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