Walker’s Haute Route – Dia 7 – La Gouille até a Cabane de Prafleuri

Sétimo dia de trekking pela Walker's Haute Route. O primeiro ônibus para Arolla, saindo de la Gouille, passaria na frente do hostel por volta das oito da manhã. Tomamos café da manhã bem cedo e com alguma antecedência estávamos no…

Trekking pela Walker’s Haute Route – O Guia Completo

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Sétimo dia de trekking pela Walker’s Haute Route. Nosso objetivo do dia seria a Cabane de Prafleuri. O primeiro ônibus para Arolla, saindo de la Gouille, passaria na frente do hostel por volta das oito da manhã. Tomamos café da manhã bem cedo e, com alguma antecedência, estávamos no ponto de ônibus. A viagem até Arolla foi rápida, cerca de 20 minutos. Estávamos contando o tempo, pois seriam 16 quilômetros de caminhada naquele dia, cinco deles praticamente em linha reta, contornando a Barrage des Dix. O principal era não perder nenhum minuto se quer. Qualquer perda de tempo poderia prejudicar o resultado do dia.

Arolla até o Pas des Chèvres (97 de 135 km)

Chegamos a Arolla e logo começamos a trilha. No começo, como sempre, passamos por várias casas, e logo depois, a paisagem foi mudando, menos árvores no caminho, vegetação rasteira mais aparente e por fim pedras e mais pedras. As montanhas do vale já eram mais visíveis.

Curtindo a paisagem um pouco depois de Arolla.
Curtindo a paisagem um pouco depois de Arolla.
Nosso companheiro durante essa subida era o Glaciar de Tsijiore Nouve e o Pigne d'Arolla (3796 m), de onde todo o gelo se origina.
Nosso companheiro durante essa subida era o Glaciar de Tsijiore Nouve e o Pigne d’Arolla (3796 m), de onde todo o gelo se origina.
Despedida da trilha que nos trouxe de Arolla. Foi uma caminhada bem tranquila e prazerosa.
Despedida da trilha que nos trouxe de Arolla. Foi uma caminhada bem tranquila e prazerosa.

Paramos em um riacho, enchemos a garrafa e continuamos a trilha. Antes da trilha começar a subir de fato para o próximo passe, ela bifurcava. Indo reto, daríamos no Pas de Chèvres (2855 m), indo para a direita, seria o Col de Riedmatten (2919 m). Aqui a bifucarção da trilha n!ao foi um problema porque as duas trilhas voltam a se juntar depois dos passes. Então aqui, a escolha é mais pelo nível de dificuldade.

As trilhas se bifurcavam logo a frente. Indo para a esquerda, Pas des Chèvres e indo para a direita, Col de Riedmatten.
As trilhas se bifurcavam logo a frente. Indo para a esquerda, Pas des Chèvres e indo para a direita, Col de Riedmatten.

Decidimos ir pelo Pas des Chèvres, menor e teoricamente menos exigente. Começamos a subida e no caminho, encontramos dois rapazes. Perguntaram pra gente pra onde estávamos indo e quando dissemos que íamos para a Cabane de Prafleuri, olharam um para a cara do outro e um deles disse que o caminho seria difícil. Como assim difícil? Depois do Pas de Chèvres, seriam cinco quilômetros sem nenhum desvio. Seria mamata! Um descanso para as pernas e joelhos.

Escadarias do Pas des Chèvres. Antigamente, era somente uma escada que descia do passe até mais abaixo. Hoje, eles "facilitaram" um pouco e dividiram as escadas em três sessões de escadas, com plataformas entre elas.
Escadarias do Pas des Chèvres. Antigamente, era somente uma escada que descia do passe até mais abaixo. Hoje, eles “facilitaram” um pouco e dividiram as escadas em três sessões de escadas, com plataformas entre elas.

Chegando ao Pas des Chèvres, antes de continuar a descida pelas escadas de metal, sentamos, tiramos um lanche e começamos a comer. De lá de cima, dava pra ver na direção de Arolla, praticamente tudo que a gente já tinha passado, incluindo a pontinha do Matterhorn encoberto nas nuvens e do outro, a vastidão do Val des Dix e lá embaixo o Glaciar de Cheilon, imenso. Dava pra ver também a Cabane de Dix, no alto de uma pequena montanha. (Antes de começar o trekking, eu queria muito fazer a trilha que contorna a Cabane de Dix ou quem sabe mesmo almoçar por lá. A trilha que leva a cabana desce do Pas de Chèvres e atravessa o glaciar. Seria uma experiência e tanto. Mas como não tínhamos muito tempo e estávamos poupando energia aonde dava, decidimos ir pela rota mais curta, contornando o glaciar até chegar ao Lac de Dix.)

Algumas pessoas começaram a chegar do outro lado. Eram americanos. Uma pessoa do grupo chegou agarrada as escadas, subindo lentamente, como se estivesse com medo de cair. Pensei que as escadarias não poderiam ser tão difíceis assim. Outras pessoas começaram a chegar da mesma forma, agarradas na escada e ofegantes. Enfim, era a nossa vez.

Gabriela se aventurou primeiro e eu fui logo atrás!
Gabriela se aventurou primeiro e fui logo atrás!
Última plataforma, antes de continuar na trilha...
Última plataforma, antes de continuar na trilha…

Fui até a plataforma de metal, segurei na guia de segurança e olhei pra baixo… não parecia muito perigoso. Gabriela foi primeiro, passo a passo. Quando ela chegou na primeira plataforma, comecei a descer lentamente. Foram o total de três plataformas, mas não achei muito difícil. Chegando na parte final, descemos em uma trilha de pedras, rochas enormes amontadas umas sobre as outras. Pensei que teriam mais escadas. Imaginava que elas nos levariam até o glaciar e de lá a trilha seria tranquila. Não foi bem assim. Guardamos os trekking poles e continuamos nos apoiando com as mãos quando necessário durante os próximos quilômetros.

Pas des Chèvres até o Col de Roux (108 de 135 km)

Uma das fotos mais lindas de todo o trekking. Na esquerda, o Glaciar de Cheilon e o Mont Blanc de Cheilon (3870 m), e a direita, bem pequenininha, a Cabane de Dix.
Uma das fotos mais lindas de todo o trekking. Na esquerda, o Glaciar de Cheilon e o Mont Blanc de Cheilon (3870 m), e a direita, bem pequenininha, a Cabane de Dix.
Essa parte era a divisa entre a trilha mais difícil, vinda do Pas des Chèvres, e a trilha que levava até o Lac de Dix.
Essa parte era a divisa entre a trilha mais difícil, vinda do Pas des Chèvres, e a trilha que levava até o Lac de Dix.

A trilha nesse primeiro momento era a mesma que levava até a Cabane des Dix. Em um momento específico, um pouco depois do fim das escadarias, várias correntes foram colocadas na encosta e pra passar de uma parte da trilha até a outra, você tinha se apoiar nelas. Não sei vocês, mas odeio essas partes. Não gosto de colocar toda minha segurança em uma corda ou corrente. Parece que é como se você tirasse das suas mãos, as decisões e agora, tudo fica a mercê das correntes. Enfim, tivemos que atravessar essas partes e continuar descendo. Logo depois a trilha bifurcava (para um lado Cabane des Dix e para o outro, o Lac/Barrage de Dix).

Aí era só alegria. Qualquer foto que a gente tirasse aqui seria um porta retrato.
Aí era só alegria. Qualquer foto que a gente tirasse aqui seria um porta retrato.

Continuamos até chegar ao Lac de Dix. A trilha melhorou bastante um pouco antes disso. De rochas enormes, muitas delas soltas, tudo mudou pra uma trilha com mais vegetação e mais segurança. Além disso, passamos pelos rios formados pelo degelo do Glaciar de Cheilon. O diferencial dos outros que já tínhamos visto antes era que esses eram enormes. Correntes de água cinza, descendo a toda velocidade. Não era simplesmente um riozinho. Eram várias torrentes, que terminavam no lago, mais abaixo. Cair ali era caminho sem volta.

Lac de Dix. A água do lago vem do derretimento de vários glaciares. A força da água era imensa e o barulho se ouvia a quilômetros de distância.
Lac de Dix. A água do lago vem do derretimento de vários glaciares. A força da água era imensa e o barulho se ouvia a quilômetros de distância.

Paramos para almoçar, com vista privilegiada para o Lac de Dix. O lago não era tão bonito quanto o Lac de Moiry, mas era maior, mais imponente. Era uma três vezes maior, pra ser mais específico. Os próximos cinco quilômetros seriam ao redor do lago. A trilha seria pela estrada construída e utilizada pela empresa que administra a barragem. Foram os cinco quilômetros mais tranquilos de todo o trekking.

Não tinha muita ideia de como seria a subida até a cabana. Sabia que teríamos que subir, pois, estávamos a mais ou menor 2300 metros de altura, e a cabana estaria a 2657 metros. Mas pra chegar lá, teríamos que passar pelo Col de Roux (2804 m). Quando a gente olhava para o horizonte, só via montanhas imensas. Não era possível que a gente tinha que subir aquilo. Ou era?

Trilha entre o começo do lago e o começo da subida até o Col de Roux.
Trilha entre o começo do lago e o começo da subida até o Col de Roux.

Depois de quilômetros em trilha plana, tranquila, chegamos a uma placa que indicava o caminho até a Cabana. Sim, teríamos que subir, não sei se toda a montanha, mas uma boa parte dela. De lá de cima, várias pessoas desciam correndo. Fui descobri depois que é possível visitar a Cabana, vindo de um teleférico perto da barragem. Foi a mesma coisa com a Cabane de Moiry.

Olhar para o horizonte e ver tudo que você já percorreu pra chegar até um determinado lugar é uma das sensações de realização mais intensas que um ser humano pode sentir.
Olhar para o horizonte e ver tudo que você já percorreu pra chegar até um determinado lugar é uma das sensações de realização mais intensas que um ser humano pode sentir.

Continuamos a subida, passamos pela Cabane de la Barmaz e pela Cabane des Ecoulaies, dois refúgios que ficavam no caminho até o Col de Roux (2804 m). Continuamos a subida, outras pessoas passaram pela gente. O tempo estava começando a piorar. A chuva viria em algumas horas, ou talvez minutos e ainda nem tínhamos passado o último passe antes da cabana. Decidimos acelerar o passo. A subida foi aumentando e a trilha ficando mais estreita e escorregadia. Felizmente chegamos no passe. Lá de cima, dava pra ver tudo que já tínhamos percorrido (e não era pouco) e do outro lado, lá embaixo, a Cabane de Prafleuri. Tínhamos feito o passe sem chuva, mas já dava pra sentir os primeiros pingos.

Metros finais até o Col de Roux.
Metros finais até o Col de Roux.
Col de Roux (2804 m). Eu não tentei ver, mas pode ser que o Ibex que vi descendo umas pedras mais abaixo tenha saído na foto!
Col de Roux (2804 m). Eu não tentei ver, mas pode ser que o Íbex que vi descendo umas pedras mais abaixo tenha saído na foto!

Col de Roux até a Cabane de Prafleuri (108.7 de 135 km)

Quando iniciamos a decida, olhei para trás para dar a última despedida e vi um movimento estranho nas rochas, mais abaixo. Parei um pouco, Gabriela continuou a descida até a cabana e comecei a reparar o que seria o movimento. Pra quem não sabe, é nessa região que o famoso Íbex pode ser encontrado. Mas ainda não tínhamos visto nenhum. Seria agora? Sim, lá embaixo, bem embaixo, na trilha, vi um pequeno Íbex saltando de uma pedra para outra. O zoom da minha máquina não seria capaz de registrar o momento, mas ficou marcado na memória. Virei pra frente, gritei pra Gabriela falando que havia visto o Íbex e ela não entendeu nada (eheheh).

Continuamos a descida. A cabana foi se aproximando e a chuva aumentando gradualmente. Já perto da cabana, uma pequena trilha de rochas sobrepostas nos levava a uma pequena colina que se atravessada, daria direto na cabana. Chegamos com chuva moderada, meio que correndo porque não tínhamos colocado nenhuma proteção nas mochilas pra não atrasar tanto.

Cabane de Prafleuri

Cabane de Prafleuri (2662 m).

Entramos com as mochilas, deixamos as botas e meias na recepção, pegamos as chinelas e esperamos para ser atendidos. Vários avisos dentro da área de recepção diziam que não poderíamos levar as mochilas para os dormitórios. Achamos aquilo estranho. Em todos os outros refúgios que ficamos, isso era permitido. Bom, falamos com a responsável pela cabana que nos informou que eles tiveram uma crise de pulgas nas camas e que não era permitido levar as mochilas pro quarto pra evitar nova contaminação. Aquilo animou a gente! Só que não. Deixar as mochilas do lado de fora dava um trabalhão a mais pra se organizar, tínhamos que deixar todos os pertences em um locker na parte de fora da cabana e levar para dentro somente o que iríamos usar, tudo dentro de uma caixa de plástico bem pequena.

Booking.com

Uma coisa que nos chamou bastante atenção foi que quando chegamos, vimos vários idosos, pessoas mais velhas,  fazendo a mesma trilha que a gente, só que no sentido contrário. Depois do casal brasileiro na Cabane de Moiry, ver mais pessoas mais velhas fazendo a mesma coisa que a gente nos deu ainda mais energia pra continuar. Era um exemplo legal. Queremos ser essas pessoas quando a gente tiver mais idade.

Enfim, deixamos as mochilas, pegamos o que era necessário e fomos para o dormitório pra se preparar para o banho. Como todos os refúgios e cabanas que fomos, o chuveiro era cronometrado. Compramos uma ficha pra nós dois e tivemos que nos virar com três minutos de banho quente. Não me pergunte como, mas deu tudo certo, e tivemos um banho digno depois de horas e horas de caminhada pesada.

Descemos para o jantar, e quando entramos no refeitório, sabe aquela sensaçao de entrar na cozinha da casa da mãe, aquele cheirinho de comida caseira? Foi o que a gente sentiu. Sem contar que o refeitório estava cheio, barulhento, abafado com o cheiro da comida que tinha acabado de ser preparada. Era isso que eu procurava em um refúgio. Comida boa, caseira, me senti em casa.

Nos sentamos, no canto de uma das mesas e pedimos uma cerveja. Antes de servir o jantar, a responsável da cabana chamou a atenção de todos:

— “Silêncio, por favor! Silêncio! Gostaria da atenção de todos. Gostaria de informar sobre o clima para o dia seguinte.”

O silêncio veio logo depois, ela continuou:

— “Pela manhã, o tempo vai estar nublado com possibilidade de chuva. De tarde, tempo nublado e possibilidade de tempestades. Recomendo saírem bem cedo amanhã, para evitar o mau tempo.”

Não liguei tanto pro aviso dela no primeiro momento. Tínhamos tudo pra se proteger da chuva. Isso seria problema pra pensar na hora de dormir, quando a gente conversaria sobre o percurso do dia seguinte. A comida veio logo em seguida. Era: uma sopa de legumes e salada de entrada e arroz temperado com porco cozido de prato principal. De sobremesa, pêssego em caldas com chantili. Um casal sentou na nossa frente e enquanto a comida chegava, começou a puxar papo.

— Oi, sou Charles e ela é a Marcela

— Prazer em conhece-los. Somos Gabriela e Marcos. De onde vocês são?

— Somos dos Estados Unidos, de Ohio, de uma cidadezinha bem pequena, que parece bastante essa região da Suíça. E vocês?

— Nossa, que legal. E vocês estão fazendo a Walker’s Haute Route ou estão visitando somente a Cabana?

— Estamos sim. Na verdade, estamos em lua de mel. Acabamos de nos casar e decidimos fazer o trekking porque essa região da Suíça lembra muito a nossa cidade.

Achei aquilo super legal. Uma lua de mel não tradicional em uma trilha com paisagens lindas e que lembra a sua terra natal de alguma forma. O papo continuou durante todo o jantar. Falamos que morávamos no Canada e todas as nossas aventuras que vivemos por aí. Foi uma conversa legal e uma comida reconfortante.

Terminamos o jantar e depois da higiene básica pré-cama, fomos para o dormitório. Lá, encontramos outro casal que falamos horas antes e perguntamos sobre as condições da trilha até a Cabane du Mont Fort. Eles foram categóricos. A trilha é bem maior do que informado no guia Chamonix to Zermatt, The Classic Walker’s Haute Route. Lembrei rapidamente que em uma parte específica do trekking, em caso de mau tempo, uma rota alternativa deveria ser seguida, ao invés da rota tradicional.

A rota tradicional seria passar pelo Col de Termin. Essa rota é considerada uma das mais incríveis, pois te dá a visão completa de todo o Massivo de Combin e também do Mont Blanc, mais distante um pouco. Era uma rota que não poderíamos perder. Entretanto, o guia falava que em caso de mau tempo, essa parte da trilha deveria ser evitada e no lugar, uma rota mais direta pelo Col de la Chaux deveria ser encarada. Perguntei sobre isso para o casal que foi categórico em dizer que se fossem eles, iriam pela rota alternativa para mau tempo. A gente preferiu tomar a decisão depois de dormir e sentir como estaria nosso corpo no dia seguinte. A rota é compartilhada até um pouco depois do Col de Louvie, a gente poderia adiar a decisão até esse momento. Fomos dormir esperando que as condições climáticas do dia seguinte não fossem tão ruins como o aviso da cabada.

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