Walker’s Haute Route – Dia 5 – Zinal até a Cabane de Moiry

Quinto dia de trekking pela Walker’s Haute Route e incríveis 66 quilômetros percorridos. Faltavam um pouco mais da metade até o nosso objetivo final. Nesse dia, a gente teria que ir de Zinal até a Cabane de Moiry, localizada pertinho da barragem e do glaciar de Moiry.

Pra chegar lá, a gente tinha que pegar um teleférico até Sorebois, e de lá, continuar a trilha até a cabana. O primeiro teleférico sairia às 8h15. Acordamos bem cedo pra tomar café, se arrumar e ainda chegar com alguma antecedência. Começar a trilha tarde é um dos piores erros que você pode cometer nesse tipo de trekking.

Zinal até o Col de Sorebois (teleférico)

Vista de Zinal no início da subida. Como o dia anterior estava bem nublado, a gente ficou surpreso com as montanhas mais atrás da cidade. Lindas!
Vista de Zinal no início da subida. Como o dia anterior estava bem nublado, a gente ficou surpreso com as montanhas mais atrás da cidade. Lindas!
Vista do vale de Zinal de Sorebois.
Vista do vale de Zinal de Sorebois.

A subida até Sorebois foi rápida. Eram um daqueles teleféricos enormes, pra umas 50 pessoas. Ao contrário do dia anterior, o céu estava limpo naquela manhã e o sol brilhava intensamente. Ao sair do teleférico, várias pessoas já estavam por lá. Algumas começaram a trilha rumo aos outros teleféricos, e outros, levaram tapetes de ioga e se sentaram em qualquer lugar, no alto da montanha, pra receber a energia das primeiras horas de sol.

Lugar perfeito pra aproveitar o sol antes de começar a trilha.
Lugar perfeito pra aproveitar o sol antes de começar a trilha.

Sorebois até o Col de Sorebois (69.2 de 135 km)

Bom, voltando a trilha, a primeira parte foi muito tranquila. Até o Col de Sorebois, a trilha era em uma estrada de terra usada pelos funcionários dos teleféricos que ficam mais acima. Era bem larga, e passava por áreas de pastagem repletas de vacas super simpáticas (hehehe). Cada uma mais linda do que a outra.

A subida foi aumentando de dificuldade. Já no final ela ficou bem íngreme. A gente ajustou a velocidade de subida pra não forçar muito e guardar energia para o resto da trilha. Durante essa parte final, as nuvens começaram a tomar o vale e quando olhamos pra trás, já não dava pra ver mais nada pro lado de Zinal, estava tudo nublado.

Col de Sorebois logo mais a frente. Esse foi o único passe, ele ficava abaixo do ponto mais alto da trilha. Viu aí que as nuvens já estava invadindo as nossas fotos...
Col de Sorebois logo mais a frente. Esse foi o único passe, ele ficava abaixo do ponto mais alto da trilha. Viu aí que as nuvens já estava invadindo as nossas fotos…

Continuamos e logo estávamos no Col de Sorebois. De um lado, nuvens e pouca visibilidade, do outro, um vale dos sonhos, com um lago azul turquesa enorme formado por uma barragem que era abastecida pelo degelo do Glaciar de Moiry. Do passe, dava pra ver praticamente toda a trilha até a barragem, bem mais abaixo. Era um zigue-zague eterno. As pessoas e carros lá embaixo eram somente pontinhos distantes.

Col de Sorebois.
Col de Sorebois.

No Col de Sorebois encontramos dois franceses. Começamos a conversar com eles e depois de trocar fotos (quando você pede pra um tirar a foto e o outro pede a mesma coisa) perguntaram de onde éramos e depois de descobrir que morávamos em Montreal, foram simpatia pura. Falaram que já visitaram a cidade, e por aí vai… Depois da despedida, ele começaram a descer antes da gente. A gente aproveitou pra comer e descansar um pouco antes de fazer a segunda parte da trilha, talvez a mais puxada.

Col de Sorebois até a Cabane de Moiry (78.6 de 135 km)

Nossos joelhos não tinham reclamado até ali, mas só foi forçar um pouco a descida, que eles lembraram a gente que não seria tão fácil assim. A descida foi mais lenta do que esperado, e depois de algumas horas (sim, mais de uma hora de descida), chegamos a uma intersecção da trilha. Subindo, faríamos o contorno do lago de Moiry por cima e descendo, faríamos o contorno por baixo, usando a mesma pista dos ônibus e carros que também contornam a barragem até Lac de Chateaupré.

Decidimos ir por cima, pra ter melhores vistas do lago. A subida foi bem gradual. O lago de Moiry e seu azul turquesa seguiu a nossa direita. Não dava pra ficar olhando muito pra paisagem. A trilha era bem estreita e com precipícios, a gente não queria nenhum acidente.

A gente parou em um lugar incrível de onde a gente tirou várias fotos. Fala aí se a cor desse lago não merece um aplauso?
A gente parou em um lugar incrível de onde a gente tirou várias fotos. Fala aí se a cor desse lago não merece um aplauso?
Aproximando ao final da barragem, já dava pra ver o Glaciar de Moiry. A Cabane de Moiry estaria ali perto, mas ainda não dava pra identificá-la.
Aproximando ao final da barragem, já dava pra ver o Glaciar de Moiry. A Cabane de Moiry estaria ali perto, mas ainda não dava pra identificá-la.

Depois de mais algumas horas de caminhada, começamos uma ligeira descida, passando por áreas de pasto. Dessa vez, algumas vacas eram mal encaradas – tava mais pra touros espanhóis prontos pra te dar um chifrada. Foi quando encontramos uma intersecção da trilha. Uma levava ao estacionamento do lago Chateaupré e a outra para a Cabane de Moiry. De fundo, o Glaciar de Moiry já dominava a vista. Era inacreditável. Montanhas imensas, repletas de gelo e uma cachoeira de gelo descendo em direção ao vale.

A parte final da trilha era mais difícil, mas a vista compensava cada passo! Dessa posição já dava pra ver a Cabane de Moiry, mas bem, bem pequenininha perto do glaciar.
A parte final da trilha era mais difícil, mas a vista compensava cada passo! Dessa posição já dava pra ver a Cabane de Moiry, mas bem, bem pequenininha perto do glaciar.

O diferencial da cabana de Moiry é que ela foi construída bem ao lado do Glaciar de Moiry. Nas fotos, não aprecia que ela estava tão alta em comparação ao lago de Chateaupré. Na realidade, quando chegamos na intersecção da trilha que levava a cabana e ao lago, olhamos para cima e lá estava a cabana, pequenininha, bem no alto. Seria mais uma subida, mas dessa vez mais íngreme. Não tínhamos outra opção. A subida seria inevitável.

A esse ponto, já estávamos bem cansados e pra completar, havia começado a chover. Tiramos as capas das mochilas e os casacos e continuamos a subida. Passamos por uma parte repleta de pedras, que descia um pouco para um vale ainda com muita neve e gelo, pra depois subir e iniciar a trilha final até a Cabana. Eu considero essa parte final a mais difícil. Era muita pedra e cascalho com barrancos enormes. Qualquer erro na pisada, a viagem acabaria ali mesmo.

Foi nessa parte que desenvolvi minha técnica de objetivos a curto prazo pra evitar pensar no objetivo final (isso sempre traz muita ansiedade e parece que o tempo nao passa). A cada virada no zigue-zague da subida, eu colocava como próximo objetivo alcançar uma distância que seria tranquilo de conseguir (por exemplo, uns 100 metros de distância). Isso me fez esquecer um pouco da cabana e me fez focar mais no caminho, e assim, conseguir lidar com a ansiedade.

De lá de baixo, dava pra ver a cabana se aproximando, até não ser possível mais vê-la. A trilha agora eram somente rochas. Tivemos que guardar os trekking poles e usar as mãos para subir. Mas o prêmio pelo esforço da parte final seria recompensado. A cabana apareceria no final das rochas. Gritamos de alegria e de dor também. Tínhamos chegado a cabana. Os joelhos estavam muito doloridos e estávamos considerando abandonar o trekking a essa altura do campeonato. Tudo doía.

Cabane de Moiry

Entramos, deixamos as botas e calçamos as sandálias disponibilizadas pelo própria Cabane de Moiry. Avançamos um pouco e entramos em um refeitório lindo, bem claro, revestido de madeira clara e com janelas de vidro imensas. A vista era de frente para o Glaciar de Moiry. Foi ali que fizemos o check-in e pedimos gelo para colocar nos joelhos. Eles não tinham, mas nos deu uma daquelas compressas frias. Pegamos a compressa e sentamos. Era também hora do chá da tarde então aproveitamos para relaxar um pouco com um chazinho enquanto a compressa fazia o seu trabalho.

Cabane de Moiry (2825 m).
Cabane de Moiry (2825 m).
Parte mais nova da Cabane de Moiry construída recentemente. É nessa parte que funciona o refeitório do refúgio.
Parte mais nova da Cabane de Moiry construída recentemente. É nessa parte que funciona o refeitório do refúgio.

O sol batia forte na janela e pouco a pouco mais pessoas chegavam inclusive algumas que faziam curso de escalada em gelo mais abaixo no glaciar. Foi a primeira cabana que realmente era mais usada por alpinistas profissionais. O clima era diferente, um ar de competição. Não sei explicar direito. O atendimento da Cabane de Moiry também foi menos caloroso do que na cabana Europa Hut. Não era mais uma cabana familiar, mas sim um grande estabelecimento. Os empregados eram adolescentes e o responsável pela cabana não estavam com cara de bons amigos. Pra completar, não havia água na cabana nem pra banho, nem para qualquer atividade de higiene básica.

Dá pra ver a compressa de gelo, as xícaras de chá e a vista que a gente tinha de dentro da cabana.

O jantar ia ser servido as 18h30. Seria um Chili vegano, com uma sopa de entrada e um pudim com chantilly bem básico. Para uma cabana ou um refúgio em montanha, esperava uma refeição mais forte, mais bem servida. Mas até aí tudo bem. No jantar ouvimos de longe algumas palavras em português. Era um casal de brasileiros que havia chegado. Não chegamos a conversar com eles no primeiro momento.

Vista do Glaciar de Moiry da parte de fora da Cabane de Moiry. Era incrível o quão próximo à cabana estava das montanhas.
Vista do Glaciar de Moiry da parte de fora da Cabane de Moiry. Era incrível o quão próximo à cabana estava das montanhas.
Vista para o lado oposto ao glaciar. Aqui da pra ver bem ao fundo a cadeia de montanhas que a gente ia enfrentar no dia seguinte.
Vista para o lado oposto ao glaciar. Aqui da pra ver bem ao fundo a cadeia de montanhas que a gente ia enfrentar no dia seguinte.

Nos sentamos em uma mesa com mais alguns americanos e dois suíços. A conversa foi bem legal. Trocamos experiências e os americanos (eram se Seattle) falaram que estavam praticando escalada em gelo nas montanhas da região. Estavam em Chamonix dias atrás. Os Suíços eram pai e filho. O pai era um senhor de idade, com seus prováveis 70 anos, e o filho, acompanhava o pai. Mal dava pra entender o inglês dos dois, pois tinha um sotaque carregado de alemão. Conversa vai e conversa vem, o jantar foi servido.

Depois do jantar, analisando a situação dos joelhos, o resultado não era nada animador. A compressa de gelo já estava quente e o dono do lugar disse que não tinha nenhum gelo pra nos dar. Resolvi comprar os últimos picolés que eles tinham pra servir de gelo e ajudar a diminuir o inchaço e a dor nos joelhos. Fomos para o quarto e ficamos alguns minutos com os picolés no joelho.

Sem perceber, vimos o casal de brasileiros entrar no quarto e começar a olhar para os nossos joelhos. Naquele momento, já estamos decididos em voltar de ônibus para a cidade mais próxima e de lá encurtar a viagem (mais um baque nos nossos planos de terminar o trekking). Não sabíamos como seria o dia seguinte. Teríamos que descer toda a montanha pra chegar até o lago e de lá pegar um ônibus. Seria um dia longo, com várias incertezas, mas não poderíamos continuar com os joelhos daquele jeito.

Bom, comecei a puxar assunto falando que também éramos brasileiros e que os joelhos estavam ruins. Eles disseram que estavam fazendo a mesma trilha que a gente. Comentei que era muito legal ver um casal de senhores fazendo aquilo, era um aprendizado, eles pareciam focados, mesmo com algumas dores, continuavam a cada dia. Isso nos impactou bastante.

Conversamos por algum tempo sobre a rota que eles fizeram e a nossa que tínhamos deixado pra trás. Recebemos vários bons conselhos para os dias seguintes assim como demos boas informações do que fizemos nos dias anteriores. Mas na real, nem sabíamos se teríamos dia seguinte. Fomos dormir pelo menos mais tranquilos. A gente sabia que no dia seguinte deveríamos tomar uma decisão, continuar ou não continuar. A resposta ficou pra amanhã.

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