Walker’s Haute Route – Dia 4 – Gruben até Zinal

Quarto dia de trekking pela Walker's Haute Route e sem dúvidas, o dia mais decisivo de todos. Seriam 17 quilômetros até a cidade de Zinal, localizada no vale de Zinal e primeira cidade francófona do trekking. Entretanto, ainda estávamos pensativos…

Trekking pela Walker’s Haute Route – O Guia Completo

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Quarto dia de trekking pela Walker’s Haute Route e sem dúvidas, o dia mais decisivo de todos. Seriam 17 quilômetros até a cidade de Zinal, localizada no vale de Zinal e primeira cidade francófona do trekking. Entretanto, ainda estávamos pensativos sobre a nossa decisão de continuar. Quilos de itens pessoais estavam bem ali do lado das camas, separados em um saco preto, prontos para descer e ficar por ali mesmo em Gruben.

Arrumamos as coisas, deixamos tudo pronto e descemos para o café da manhã. As perguntas vinham enquanto a gente comia. Deixar aquilo tudo era realmente necessário? Vai mesmo ajudar no nosso desempenho? Vamos aguentar os próximos quilômetros até Zinal? Paramos de pensar um pouco e focamos em nos alimentar bem. O café foi melhor do que esperávamos. Queijos, presunto, pães de todos os tipos, opções sem glúten, iogurtes, geleias, sucos e leite. Tomamos o café rapidinho e fizemos alguns sanduíches para o almoço. Saímos às 6h30, fazia bastante frio e o tempo estava nublado.

Gruben até o Col de la Forcletta (55.8 de 135 km)

Começamos a trilha pelo vale de Turtmanntal, indo na direção do glaciar. Ainda perto de Gruben, cruzamos com um casal de senhores, que ficaram por alguns minutos no segundo. Perto da entrada definitiva da trilha, o senhor apontou para cima indicando o início da trilha. Perguntei – “Forcletta?” – e ele confirmou apontando novamente para o mesmo lugar.

Cidade de Gruben, no vale de Turtmanntal.
Cidade de Gruben, no vale de Turtmanntal.
Glaciar de Turtmanntal, pra mim um dos mais lindos dos Alpes.
Glaciar de Turtmanntal, pra mim um dos mais lindos dos Alpes.

No começo, a subida foi em zigue-zague por um bosque úmido e cheio de vida. Demoramos cerca de uma hora para chegar a parte mais alta, de onde seguimos por uma estrada de terra batida que contornada a encosta do vale. Da estrada, nosso plano de fundo eram as montanhas Weisshorn (4506 m), Bishorn (4153 m), Les Diablons (3609 m). Descendo entre elas, uma cachoeira imensa de gelo, o Glaciar de Turtmanntal. Pra mim foi umas das paisagens mais impressionantes do trekking. O conjunto das montanhas com o glaciar era quase geométrico, imponente.

O encontro com as vaquinhas suíças era quase que obrigatório durante todo o trekking.
O encontro com as vaquinhas suíças era quase que obrigatório durante todo o trekking.
Chante Berg, pequena vila que fica entre Gruben e o Col de la Forcletta.
Chante Berg, pequena vila que fica entre Gruben e o Col de la Forcletta.

Continuando, passamos por Chante Berg (2498 m), um pequeno vilarejo com alguns currais e extensas áreas de pasto. As vacas estavam se alimentando e dava pra ouvir de longe os sinos, balançando no pescoço de cada uma. Era a trilha sonora que se repetia quase que diariamente. Nessa parte da trilha até um pouco antes de começar a subida até o Col de la Forcletta, tivemos tempo suficiente pra parar, descansar, comer, descansar mais um pouco, pensar, aproveitar a vista, enfim estávamos realmente curtindo o trekking.

Vista do vale de Turtmanntal.
Vista do vale de Turtmanntal.

Ao invés de chegar de uma vez no passe, a trilha contornava suavemente pela lateral da montanha e a chegada à incríveis 2874 metros era quase que plana. Posso dizer que a conquista do nosso segundo passe foi mais especial por vários fatores.

Momentos antes de chegar ao Col de la Forcletta.
Momentos antes de chegar ao Col de la Forcletta.

Primeiro, o Col de la Forcletta tem uma importância enorme do ponto de vista linguístico na Suíça. É uma das divisas linguísticas entre o alemão, falado mais a leste e o francês, falado à oeste. Segundo, a subida foi mais gradual do que no dia anterior. Isso já é um ponto mais do que positivo. Terceiro, dosamos melhor o esforço pra não gastar toda a energia de uma só vez e chegar menos cansados lá em cima. Por último, e talvez o mais importante, estávamos com menos peso na mochila. Isso ajudou bastante em melhorar a nossa experiência no trekking. Os ombros não doíam mais e a gente ao invés de se preocupar com o peso, agora se preocupava em olhar mais a paisagem.

Mais um passe vencido!
Mais um passe vencido!

Lá do alto, sentados em uma pedra descansando, vimos um casal se aproximando, vindos da direção de Zinal. Com eles, um cachorro são-bernardo enorme. Não acreditei que o cachorro também estava fazendo trekking. Os três subiam tranquilamente sem nenhuma pressa. Quando chegaram, o são-bernardo veio na nossa direção e parou do nosso lado como se estivesse esperando pra ser alisado. Aproveitei pra puxar papo com os donos, um senhor de uns 50 anos, barrigudo, barba por fazer e uma cara de cansado, e uma senhora de mesma idade, mas de aparência mais jovem, totalmente oposta do senhor. Estava com saudades de falar em francês com alguém e aquela era a oportunidade.

— “Vocês estão vindo de onde?”.

— “De St-Luc, e vocês? estão indo pra qual direção?” Respondeu o senhor.

— “Zinal”.

— “Zinal? Serão mais 9 horas de trilha até a cidade, é melhor vocês correrem!”. A senhora olhou pro marido, com uma cara de deboche, olhou em seguida pra gente e começou a mover a cabeça dizendo que aquilo não era verdade. Quando menos se esperava, o cachorro começou a subir em direção ao ponto mais alto do passe, sem o seu dono, onde outras pessoas descansavam. O senhor começou a gritar:

— “Volta aqui, volta! Voltaaaa agora… VOLTA!”. E foi assim por alguns segundos. O cachorro nem ligava. Tinha vontade própria. Isso deu a deixa para nos despedir e começar a descida até Zinal.

Col de la Forcletta até Zinal (65.8 de 135 km)

Começamos a descida mais descansados e com muita energia. A trilha rumo à Zinal era bem parecida com a passagem do dia anterior, só que bem mais tranquila, sem muitas descidas íngremes. Dava pra ver Zinal lá embaixo.

Aqui vai uma dica de amigo pra esse trekking em especial. Mesmo que você já consiga ver de longe a cidade ou a cabana que você tem que chegar, não confie na sua visão. O problema nem é a distância, e sim a altura. Um quilômetro em linha reta é pouco, mas um quilômetro em zigue-zague, descidas e subidas, é bastante e demora muito mais pra ser percorrido. A gente não foi preparado pra isso e quando a gente viu Zinal, lá embaixo no vale de Zinal, a gente pensava que tava perto. Mera engano!

Ao fundo, o Glacier de Zinal e as montanhas Dent Blanche (4357 m) e Pointe de Zinal (3789 m).
Ao fundo, o Glacier de Zinal e as montanhas Dent Blanche (4357 m) e Pointe de Zinal (3789 m).

Na parte final da trilha, a gente começou uma descida por dentro de uma floresta densa de pinheiros. Os joelhos agora começaram a doer novamente. Tivemos que improvisar. Pra melhorar (irônico), a trilha ficou bem, mais bem íngreme. Improvisamos e começamos a descer de costas, olhando pra trás e apoiando o trekking pole pra dar suporte a cada passo. Isso tirava a pressão dos joelhos e ainda aumentava a velocidade da descida.

Zinal e o Auberge Alpina

Chamemos em Zinal acabados. Foram 17 quilômetros de caminhada intensa, mas estávamos felizes. O peso da mochila tinha feito diferença e os joelhos por mais que estivessem doloridos, estavam funcionando tão bem quanto nos dias anteriores. Atravessamos a cidade de Zinal, passando por casas no estilo suíço. Pareciam bem antigas, com madeira escura. Os arranjos de flores eram obrigatórios. Cada um mais colorido do que o outro. A mudança de língua entre um vale e outro era nítida. Tudo agora estava em francês! Finalmente a gente entendia alguma coisa.

Todo jantar era um momento de comemoração. 17 quilômetros vencidos! Pra comemorar, queijos, salada, chocolate suíço e uma boa cerveja local.
Todo jantar era um momento de comemoração. 17 quilômetros vencidos! Pra comemorar, queijos, salada, chocolate suíço e uma boa cerveja local.

Paramos em um mercado pra comprar o jantar e os suprimentos para os próximos dias. Depois disso, fomos para o hostel, chamado Auberge Alpina, que ficava um pouco afastado do centro de Zinal. Fomos acolhidos pela dona do lugar, super simpática. Falava um francês bem lento e amigável, quase cantado. Nos sentimos acolhidos. No primeiro andar, funcionava um restaurante e no segundo e terceiro andares, eram os quartos, sendo o dormitório no último. No restaurante, vários senhores estavam planejando os próximos dias de trilha, com mapas abertos na mesa e copos de cerveja, bebendo enquanto conversavam. Achei interessante, não eram os primeiros senhores que a gente tinha visto fazendo trilhas pelos alpes.

A gente pediu pra usar uma mesa do restaurante para jantar. A dona, olhou pra gente, e nos levou para uma mesa do lado de fora, e disse que iria fornecer os pratos, talheres e os guardanapos. Mesmo insistindo que não era necessário, ela dizia – “Não, não, eu faço questão! Isso foi super gentil da parte dela. Depois do jantar merecido (salada, queijo, chocolate e uma cerveja local), subimos, tomamos banho e nos preparamos para dormir. A decisão de tirar peso da mochila havia dado certo e estávamos preparados para o próximo dia de trekking. O destino seria a nossa segunda cabana da Walker’s Haute Route, a Cabane de Moiry.

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