Walker’s Haute Route – Dia 3 – Grächen até Gruben

Trekking pela Walker’s Haute Route – O Guia Completo

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Terceiro dia de caminhada. Descemos para preparar o nosso café da manhã na cozinha do hostel. A cozinha era bem completa. Fogão industrial, geladeira, pratos, talheres, tudo! Quando entramos, lá estava o nosso amigo do dia anterior, o mesmo que a gente achava que era o dono do hostel. Alguém na recepção? Não. Nem sinal de vida! A esperava encontrar o dono do lugar pelo menos pra dizer tchau. Vida que segue, não tínhamos tempo pra pensar nisso. Focamos na preparação do café da manhã e na arrumação final para a trilha. Iríamos de Grächen até Gruben, última vila suíço-alemã de todo a Walker’s Haute Route.

Nosso amigo seguiu puxando assunto, perguntando o que estávamos fazendo e dizendo que estava planejando um tour pelo Mont Rosa. Ele estava literalmente morando no hostel fantasma junto com a esposa, já por alguns dias. Isso explicava o porquê dele saber como tudo funcionava por lá. Podia ser considerado o administrador do lugar, na ausência do dono, né não?

De Grächen até Jungen (ônibus 551 – teleférico)

Depois de tomar café, descemos para pegar o ônibus. Esperamos por uns 20 minutos. Seria o primeiro ônibus do dia para Saint Niklaus. Com a gente, iam para a escola várias crianças, e com elas, a professora que colocava ordem na barulheira. Já em Saint Niklaus, andamos um pouco para pegar o teleférico até Jungen, uma pequena vila no alto da montanha, mas também um dos melhores viewpoints para o Glaciar de Ried. Lá partiríamos rumo a Gruben, a cerca de doze quilômetros de distância.

Tivemos que esperar o operador do teleférico voltar pra poder subir.
Tivemos que esperar o operador do teleférico voltar pra poder subir.

Pegamos o teleférico com um morador de Jungen. Ele estava levando cerveja e alguns mantimentos para o alto da montanha. Esse sim tinha uma vida boemia (hehehe). Esse teleférico era muito distante dos centros urbanos da Suíca. Eu ficava me perguntando como alguém é capaz de morar tão isolado assim, em uma encosta de montanha. Enfim, não deu muito tempo pra saber se valia mesmo a pena ou não (hehehe). O senhor não falava uma palavra de inglês. Só soube dizer marmota e apontar o dedo para o chão, lá do teleférico, dizendo que havia uma marmota mais em baixo. Se vimos? Nem o rastro, elas estavam muito rapidinhas naquela manhã!

Jungen até Augstbordpass (42.8 de 135 km)

Depois de alguns minutos estávamos em Jungen. Lá de cima, além do Glaciar de Ried, também dava pra ver o Dom (4545 m), a maior montanha totalmente em território suíço. A vista de lá de cima era muito linda e impressionante. Seria uma das primeiras amostras da grandeza dos Alpes. Foi o aperitivo para os próximos dias.

A borboleta e o pássaro lá no fundo fizeram questão de aparecer na foto.
A borboleta e o pássaro lá no fundo fizeram questão de aparecer na foto.

De Jungen, a trilha começou bem tranquila com uma subida gradual. Primeiro passamos por uma vegetação mais rasteira, entre áreas de pasto, depois, a medida que subíamos, ela começou a ficar mais rochosa. Um grupo de ciclistas de montanha vinha logo atrás, subindo a mesma trilha, mas com as bicicletas nas costas. Coragem viu?

Continuando a subida, chegamos no trecho que dava a volta na montanha Twära (2660 m). A partir de lá, a trilha ficou bem, mais bem rochosa, com pedras levemente soltas e com alguns trechos sem marcação. Pra completar? Precipícios enormes! Esse caminho pelas pedras nos levaria até o nosso primeiro passe (col como eles chamam em francês) da viagem. Pra quem não sabe, o passe é uma pequena passagem, normalmente mais baixa do que as montanhas ao redor, que possibilita a passagem de um vale ao outro entre cadeias de montanhas. O passe da vez era o Col de Augstbordpass (2894 m), que ligava o vale de Mattertal ao Turtmmantal, o mais alto até então.

A única coisa que fazia a gente esquecer um pouco da trilha eram as arvorezinhas de mirtilo (blueberry) na beira da trilha. Eram pequenininhas! O interior desse mirtilo selvagem era mais escuro, diferente dos mirtilos que a gente conhece por aqui. Na verdade, hoje eu ainda me pergunto se aquelas frutinhas eram mesmo mirtilo. Se não fossem, seriam o que? Venenosas não eram porque comemos bastante e estamos vivos para contar a história.

Caminho em direção ao passe Augstbordpass. Uma coisa que aprendemos nos Alpes é que não dá pra confiar na visão pra estimar distâncias.
Caminho em direção ao passe Augstbordpass. Uma coisa que aprendemos nos Alpes é que não dá pra confiar na visão pra estimar distâncias.

Enfim, até ali tudo bem. A trilha mais leve do dia anterior havia de fato ajudado na recuperação dos joelhos. As pernas respondiam bem ao esforço e tudo parecia ok. Mesmo tendo o passe de Augstbordpass no campo de visão, parecia que ele nunca chegava. A gente andava, andava e andava e a passe ainda estava lá, bem longe. A subida era interminável. O que amenizava um pouco a ansiedade era a vista incrível do vale de Mattertal lá de cima.

Vista do vale de Mattertal, antes do Col de Augstbordpass.
Vista do vale de Mattertal, antes do Col de Augstbordpass.
Parte final da subida, onde a gente começou a acelerar pra tentar chegar rapidamente ao Col de Augstbordpass.
Parte final da subida, onde a gente começou a acelerar pra tentar chegar rapidamente ao Col de Augstbordpass.

Só depois de muito esforço, aceleramos os passos e enfim conseguimos chegar ao topo do nosso primeiro passe. A felicidade total! Mesmo com o cansaço, não dava pra esconder o sorriso.

Augstbordpass (2894 m)
Augstbordpass (2894 m)

Lá de baixo, vinha um homem branco, alto, vestido com a camisa do Bob Dylan. Chegou rapidamente, nos cumprimentou e começou a conversar. Estava hospedado em Gruben, provavelmente no mesmo hotel que a gente. Sua esposa estava na cidade esperando por ele para o jantar. E lá estava esse senhor e a gente, à quase 3000 metros de altura. Isso que é disposição.

Augstbordpass até Gruben (48.5 de 135 km)

As vacas nem ligavam muito para as pessoas na trilha. O importante era comer, comer e comer.
As vacas nem ligavam muito para as pessoas na trilha. O importante era comer, comer e comer.

Começamos a descida primeiro do que o senhor. Como havíamos forçado mais na subida para chegar rápido ao passe, as pernas ficaram mais cansadas e os joelhos mais desgastados. O peso da mochila fazia bastante diferença. Agora, mais do que nunca o peso incomodava. Mesmo com a paisagem linda que foi mudando para uma floresta belíssima e colorida, a descida de cerca de 1000 metros foi na raça! Pra tentar ajudar um pouco, começamos a cortar caminho nos vários zigue-zagues da trilha. Mas na real? Acho que isso piorou a experiência, já que os atalhos eram mais íngremes e forçavam ainda mais os joelhos.

Final da trilha, lembro somente de três coisas que fizeram a gente esquecer um pouco a dor: a primeira foi uma árvore de framboesa carregada ao lado de uma cachoeira linda. Claro que paramos para comer, reabastecer a garrafa de água e descansar. A segunda, foi ver o hotel lá em baixo, a poucos metros (centenas, na verdade). Começamos a xingar tudo e todos – era uma mistura de ansiedade e frustração! Havíamos chegado, mas com dores nos joelhos e agora também no pescoço, devido ao peso das mochilas.

Gruben e o Hotel Schwarzhorn

Hotel Schwarzhorn, um ponto fora da curva se tratando de Gruben. De longe, era a maior casa da cidade e de quebra, era dia de festa para a melhor idade!
Hotel Schwarzhorn, um ponto fora da curva se tratando de Gruben. De longe, era a maior casa da cidade e de quebra, era dia de festa para a melhor idade!

Pois bem, quando chegamos no hotel, que por sinal era destoante com relação ao resto da cidade, grande, imponente, movimentado, demos de cara com um baile de idosos, que cantavam e dançavam ao som de um acordeão. Aquilo foi surreal. Esperava um hotel com várias pessoas vindas da trilha, vestidas com roupas de marca esportiva e bebendo cerveja conversando sobre o dia que tiveram, mas não. Eram vários senhores e senhoras se divertindo em uma cidadezinha bem pequenininha bem distante de tudo e todos.

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Falando de Gruben, a cidade fica no vale de Turtmmantal, cercada de montanhas e com vista privilegiada para o Glaciar de Tourtemagne. A cidade é tão pequena que só “funciona” no verão, não tem nenhum supermercado e não existe quase nenhuma opção de transporte público. Guarda essa última informação que ela vai ser importante mais pra frente.

Continuar ou não continuar?

Bom, entramos no hotel, fizemos o check-in, subimos para o quarto e arrumamos nossas coisas. Começamos a conversar sobre o nosso desempenho naquele dia e chegamos a decisão que no próximo dia iríamos tentar ir de Gruben à Zinal (nossa próxima parada) de transporte público. O corpo estava acabado, travado, tudo doía! Jantamos, discutimos mais um pouco o dia seguinte e fomos para o quarto dormir. Por sinal, ficamos sozinhos em um dormitório imenso.

No meio da madrugada, Gabriela virou pra mim e começou a conversar sobre como faríamos dali pra frente. Decidimos continuar, mas fazendo um limpa na mochila, tirando tudo que não seria 100% necessário para os próximos dias de trilha. A opção de transporte público de uma cidade para a outra sairia muito cara e tomaria muito tempo. A decisão final era que a cada destino, avaliaríamos a situação, e tomaríamos a decisão a cada dia. Só continuaríamos o trekking se tudo estivesse ok.

Separamos chinelas, tênis, camisas, calças, meias extras. Tudo que não era muito necessário foi para dentro de um saco. Era uma mistura de sentimentos. De um lado, a gente sabia que era a melhor decisão a se tomar. De outro lado, batia uma tristeza de deixar vários itens que a gente tinha um carinho especial. Era isso ou não continuar. Depois que tudo estava dentro do saco, voltamos a dormir. No dia seguinte deixamos o saco na recepção (pra doação) e continuamos o trekking até Zinal, primeira cidade francófona da trilha.

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