Walker’s Haute Route – Dia 2 – Europa Hut até Grächen

Trekking pela Walker’s Haute Route – O Guia Completo

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Segundo dia na incrível Walker’s Haute Route. Depois de uma noite fria e com beliches barulhentas, o que preocupava mesmo eram as dores do dia anterior. Felizmente, elas já não eram tão fortes assim, mas ainda estávamos bem cansados. Arrumamos as coisas e descemos para tomar café bem cedo, isso era por volta das seis horas da manhã. Deixamos as mochilas do lado da mesa e sentamos no mesmo lugar do dia anterior, com as mesmas pessoas, que continuavam conversando, como se conhecessem hà séculos! A gente, de novo na nossa, pensando em como seria a trilha dali alguns minutos.

Cabana Europa Hut até Randa (25.4 de 135 km)

A gente tinha ainda que decidir se continuava mais um pouco pela Europaweg ou se descia para Randa e continuava a trilha até Grächen de lá. A gente chegou em um consenso que seria melhor poupar o corpo e evitar trilhas mais exigentes como a Europaweg. Decisão tomada, comemos rapidinho (pão com geleia, queijo, presunto, acompanhados de leite e um cafezinho bem quentinho) e já estávamos preparados para a trilha.

Aviso: Deslizamentos recentes obrigaram o fechamento de um bom trecho da Europaweg entre Gasenried e a Europa Hut. Você pode pegar uma das duas rotas alternativas mostradas aqui. Pra mais informações do estado atual da trilha, acesse o site www.europaweg.ch/en/.

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Saímos da cabana e pegamos a mesma trilha do dia anterior, só que dessa vez, descendo em direção a ponte Charles Kuonen-Hängebrücke. Essa trilha bifurcava já na ponte: atravessando ela, voltaríamos para Zermatt, descendo a encosta, chegaríamos em Randa, mais abaixo no vale de Mattertal.

Minutos de preparação final antes de pegar a trilha. O sol estava bem fraquinho e ainda fazia bastante frio.
Minutos de preparação final antes de pegar a trilha. O sol estava bem fraquinho e ainda fazia bastante frio.
Nascer do sol nas montanhas!
Nascer do sol nas montanhas!

A trilha da cabana até Randa era uma descida dentro do bosque. A gente esperava que os joelhos reclamassem, mas eles até que fizeram um bom trabalho. Já perto de Randa, passamos por algumas fazendas (em uma delas a gente encontrou um cavalo super simpático) e por várias casinhas no estilo clássico suíço. Todas elas eram em madeira rústica, bem escuras e com arranjos de flores bem coloridos na parte de fora. Passando pelas casas, dava pra ver os moradores fazendo coisas do dia a dia, como lavando roupa, caminhando pela rua ou conversando na sacada das casas. Eles sempre davam bom dia sorrindo, dando Boas-vindas e logo depois continuavam o que estava fazendo.

Trilha entre a Cabana Europa Hut e Randa.
Trilha entre a Cabana Europa Hut e Randa.
Parte final, antes de chegar em Randa. O sol começava a sair das montanhas e o vale estava cheio de vida!
Parte final antes de chegar em Randa. O sol começava a sair das montanhas e o vale estava cheio de vida!

Randa até Saint Niklaus (35.5 de 135 km)

De Randa, pegamos uma trilha que ficava entre os trilhos do trem e o rio Matter Vispa. Essa trilha nos levou até Herbriggen, uma pequena cidadezinha no meio do caminho para Saint Niklaus. Lá, a gente decidiu adaptar ainda mais o percurso e ao invés de subir para Gasenried e depois Grächen, fomos direto para Saint Niklaus (fomos pela trilha que contornava o rio). Acho que foi a decisão certa. Pois, além de ser uma trilha super tranquila e de poder ouvir o barulho do rio durante todo o caminho, foi também um caminho que nos proporcionou um maior contato com a população local.

Mesmo a trilha sendo fácil, a gente acabou se perdendo. A gente tinha que continuar contornando o rio Matter Vispa, mas ao invés disso, viramos a direita e entramos na propriedade de alguns agricultores (hihihihi). Um casal de senhores limpava o quintal da casa enquanto dois cachorros faziam a segurança das terras recém cultivadas. Começamos a andar em direção a propriedade e uns cachorros desconfiados começaram a nos seguir. Quando vimos, duas senhoras, de longe, apontavam pra outra direção, dizendo que a trilha era pro outro lado. Mas sabe quando o conselho vem com muita tranquilidade? Errar até que foi bom!

Mais pra frente, passamos por um parque ao lado de uma represa. Vimos que havia uma fonte de água e a gente parou pra abastecer as garrafas. No parque, em uma das mesa, havia uma senhora que escrevia em um caderninho. Parecia que ela não percebia a nossa presença. Foi como se a gente não existisse, como se o estado de tranquilidade dela fosse tão grande que nem um estranho poderia tirar ela daquele lugar onde estava.

Antes de chegar a Saint Niklaus passamos por uma pequena cidade onde os quintais das casas estavam repletos de maçãs. Não conta pra ninguém, mas a gente se serviu de algumas (hihihihi). Pra falar a verdade, acho que o dono da casa nem ligaria. Se ele(a) tivesse visto a gente pegando as maçãs, teria dado mais duas pra cada um. Nunca vamos saber… Enfim, pegando essa trilha mais tranquila, conseguimos descansar um pouco os joelhos e, de quebra, deu pra conhecer bastante a vida nas cidadezinhas do vale do Mattertal.

A trilha entre Randa e St Niklaus era praticamente toda assim. Foi um descanso para as pernas e joelhos.
A trilha entre Randa e St Niklaus era praticamente toda assim. Foi um descanso para as pernas e joelhos.

Saint Niklaus até Grächen (ônibus 551)

Chegando em Saint Niklaus, pra nossa surpresa, a cidade era bem maior do que a gente imaginava. Várias escolas, comércios e casas. Havia uma boa movimentação nas ruas, principalmente das crianças saindo da escola. Até elas diziam bom dia, assim do nada! Isso era por volta do meio-dia.

Fomos direto ao centro da cidade, primeiro em busca de uma farmácia. A gente precisava comprar um creme para dor muscular. Naquela hora, todos os comércios estavam fechados. Me lembrou bastante as cidadezinhas do interior no Brasil que param na hora do almoço. Então decidimos ir direto para Grächen. A parada de ônibus informada no celular mostrava um ponto totalmente aleatório. Chegamos a perguntar para uma pessoa na rua, mas ninguém se entendeu. Acabamos andando mais um pouco até achar finalmente o ponto correto que levaria a gente até Grächen.

Quando chegamos na parada correta o ônibus que a gente tinha que pegar havia passado há 10 minutos. O próximo ônibus só chegaria uma hora depois. O jeito era esperar. Tiramos as mochilas, sentamos e enquanto conversávamos, lá vinha um ônibus amarelo. Me levantei, olhei para o letreiro e era o nosso ônibus pra Grächen. Mas como assim os ônibus atrasam na Suíça? Pelo jeito isso podia acontecer… O ônibus tinha como ponto final a parada em frente ao nosso hostel em Grächen. Em alguns minutos, estávamos em Grächen.

Grächen e o hostel fantasma

Chegando em Grächen, fomos direto para o nosso hostel (Ferienhaus Allalin), a alguns passos de onde o ônibus nos deixou. Ele ficava na parte superior de um restaurante que parecia abandonado. A entrada era pela lateral e estava aberta. Esperamos um pouco na entrada da lateral. “Hello? Hello? Anybody’s there?” E o silêncio vinha como resposta.

Ao lado da porta, havia um aviso escrito em alemão. Tentamos traduzir o aviso deixado na recepção e ele dizia quais quartos estavam vazios e o horário que o dono(a) estaria por lá (isso eram umas duas horas da tarde e o dono estaria por lá só por volta das oito da noite).

Centro da cidade de Grachen. Ao fundo, o Brunegghorn (3833 m) e mais atrás, o Pointe Burnaby (4135 m), sem contar o céu claro e limpo daquele dia. Dia perfeito!
Centro da cidade de Grachen. Ao fundo, o Brunegghorn (3833 m) e mais atrás, o Pointe Burnaby (4135 m), sem contar o céu claro e limpo daquele dia. Dia perfeito!

Decidimos entrar e escolher um quarto aleatório e que batesse com a descrição da nossa reserva. Subimos mais um lance de escadas e quando abrimos as portas dos quartos, todos tinham a chave da porta do lado de dentro do quarto. Tá brincando comigo? Isso é pegadinha? Abrimos outros só pra confirmar e a mesma coisa. O hotel estava funcionando sem ninguém e era isso. Os pagamentos extras (taxa municipal e aluguel de cobertor) deveriam ser depositados em uma caixinha preta na recepção. E por incrível que apareça, tudo parecia estar funcionando bem.

Saímos pra comprar o tal creme para dor muscular, entramos na farmácia e as atendentes nos acolheram falando alemão. Quando perguntamos se falavam inglês ou francês, uma olhou pra cara da outra, deram uma risada e começaram a se empurrar para saber quem ia pegar aquela bucha! No final, a que falava um pouco mais de francês nos atendeu e deu tudo certo.

De lá, fomos comprar comida para os próximos dias e pra jantar. Chegamos no hostel e finalmente ouvimos barulhos vindos da cozinha. Seria o dono? Quando entramos, encontramos um homem de uns 40 anos, careca, barba por fazer e com cara de cansado. Também havia uma mulher mais ao fundo, sentada, com pilhas e pilhas de papel na mesa, trabalhando em algo que parecia importante. Sem dúvida seriam os donos do hostel. Não tinha outra opção.

Jantar improvisado na fachada do nosso quarto. Salada com abacate cortado, cerveja e um chocolatinho pra finalizar.
Jantar improvisado na fachada do nosso quarto. Salada com abacate cortado, cerveja e um chocolatinho pra finalizar.

O homem veio na nossa direção e a gente começou a conversar com ele como se ele fosse o proprietário. Ele foi em direção ao aviso na porta para ver se tinha alguma coisa em especial com a nossa reserva. Por fim, ele virou e disse que por acaso ele não trabalhava ali! hahahaha! Olhei pra cara da Gabriela e comecei a rir!

Mais tarde, ao entrar no banheiro, encontrei com outro rapaz, que falava um pouco de inglês e que estava consertando a pia de um dos banheiros do hostel. A gente não tinha desistido de encontrar o dono. Ainda estava pensando que era uma pegadinha. Então perguntei se ele era o dono e a resposta, como de hábito, foi não. Ele disse que foi chamado só pra consertar a pia e era isso. Pronto, além de não ter dono e de se auto-gerir, o hostel se autoconserta. Fomos dormir sem saber quem cuidava do hostel. Mas quer saber? Não era nosso problema. A gente tinha uma trilha longa no dia seguinte e não dava pra perder tempo com isso.

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