Walker’s Haute Route – Dia 1 – Zermatt até Europa Hut

Trekking pela Walker’s Haute Route – O Guia Completo

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Esse é o começo da história do mais longo trekking das nossas vidas (até agora). Foram mais de 135 quilômetros de trilhas (sem contar os deslocamentos de ônibus, trem e de teleférico). Nos aventuramos pela Walker’s Haute Route, um trekking especial no coração dos alpes suíços. Uma das mais lindas paisagens do mundo. A gente tava super motivado. Chegamos a Zurique e depois de um dia turistando na maior cidade da Suíça, pegamos um trem que nos levou até Zermatt, de onde iniciamos a aventura.

Chegamos a Zermatt às onze da noite e a cidade ainda estava em pleno funcionamento. Bares e restaurantes ainda disputavam os clientes. Não podia dizer a mesma coisa do nosso hostel (Zermatt Youth Hostel). A recepção fechava às dez. Quando chegamos, os nossos cartões de acesso ao hostel estavam em um envelope pregado na porta, do lado de fora. Comentei com Gabriela que achei estranho alguém deixar o cartão de acesso do lado de fora da porta, acessível pra qualquer pessoa na rua. Parece que isso é comum na Suíça. 

Lemos as instruções no envelope junto com o cartão de acesso do quarto, entramos, subimos para o dormitório e tivemos que arrumar as coisas sem fazer muito barulho para não acordar as outras pessoas. Fomos deitar somente por volta da meia-noite. Nesse dia não deu pra dormir muito (expectativas a mil, fuso horário, etc.). A noite não foi tão proveitosa assim.

No dia seguinte, acordamos cedo, descemos para fazer o check-out e tomar café. Tivemos a primeira grande surpresa do dia: o café da manhã do hostel era muito bom. Era bem servido e com muita variedade (considerando que estamos falando de um hostel). Várias opções de café, leite, pães, iogurtes, frutas, queijos, geleias, presunto, etc. Foi uma quebra de expectativa positiva. Não esperava ter um café da manhã tão completo como aquele.

A segunda grande surpresa (talvez a mais interessante e essa sem exagero nenhum) foi quando nos sentamos para comer. Ao olhar pela janela, vimos nada mais nada menos que o Matterhorn. A montanha mais famosa da Suíça estava bem na nossa frente, sozinha, cercada de um céu azul-claro, sem nenhuma nuvem ou qualquer coisa que pudesse atrapalhar a visão. Muitos fazem esse trekking para ter exatamente essa visão da montanha que a gente teve no nosso primeiro dia.

Não pensamos duas vezes, saímos para a sacada do refeitório com um copo de café quentinho na mão e ficamos por uns cinco minutos, digo dez, apreciando aquela montanha imensa e maravilhosa. Isso de alguma forma ajudou a revitalizar o nosso corpo e a alma, compensando um pouco a noite mal dormida.

Zermatt até Täschalp (12.7 de 135 km)

Era finalmente hora de começar. Terminamos o café da manhã, saímos do hostel, tomamos o rumo da trilha (que era bem ao lado do hostel) e começamos a caminhada até a Cabana Europa Hut, nosso objetivo do dia. Seriam em torno de vinte quilômetros. O início foi puxado, pois, tivemos que subir da base do vale de Mattertal até a trilha Europaweg. Essa trilha liga as cidades de Zermatt e Grächen pelo alto das montanhas.

Primeira foto da trilha! Sorriso no rosto! Não dava pra ser diferente, o dia estava perfeito!
Primeira foto da trilha! Sorriso no rosto! Não dava pra ser diferente, o dia estava perfeito!

O dia estava perfeito, mesmo com o frio o ceú azul contratava lindamente com as montanhas. A cada zigue-zague na trilha, lá estava o Matterhorn, lindo, imenso, ainda com alguma neve, sorrindo pra gente. Dava pra ver com detalhes cada cantinho do Matterhorn e das montanhas ao lado (Breithorn, Theodulhorn e Furgghorn). Estávamos com sorisso de orelha a orelha, tínhamos ganhado na loteria e não tinha nada mais a fazer do que agradecer por um começo de dia lindo como aquele. O peso da mochila nem fazia muita diferença. Estávamos em estado de ecstasy.

Último viewpoint do Matterhorn. A partir daqui o Matterhorn aparecia somente com mais montanhas na frente.
Último viewpoint do Matterhorn. A partir daqui o Matterhorn aparecia somente com mais montanhas na frente.

A primeira parte da trilha era bem tranquila. A gente encontrou um monte de gente fazendo caminhada, tipo bate e volta, sabe? Subiam de teleférico, faziam uma pequena caminhada e desciam de volta pelo teleférico no final do dia. A vista 360 graus desse lugar era coisa de outro mundo.

Continuamos por alguns quilômetros e fizemos a primeira parada pra tirar os casacos e as proteções de frio. Já fazia mais calor e com o progresso na trilha o corpo já produzia calor suficiente pra não ter mais a necessidade de casacos.

A partir dali, foram quilômetros de trilhas. As trilhas planas e largas iam dando lugar a trechos mais ondulados e irregulares. Avançamos bem nesse primeiro trecho que terminou em Täschalp. Isso foi por volta do meio-dia. A partir dali a quantidade de pessoas na trilha era bem menor. Agora só víamos quem realmente estava no trekking ou buscando mais aventuras.

Dos vinte quilômetros planejados, havíamos percorrido incríveis doze quilômetros. Foi um bom progresso! Decidimos parar para almoçar em Täschalp, com a vista das montanhas ao redor (Täschhorn, Rimpfischhorn e o Allalinhorn na direção leste, e Weisshorn, com seus incríveis 4505 metros a oeste).

Täschalp, vila a 2214 metros e, no fundo, Täschhorn com 4491 metros.
Täschalp, vila a 2214 metros e, no fundo, Täschhorn com 4491 metros.

Täschalp até a Cabana Europa Hut (22 de 135 km)

A partir de Täschalp a trilha começou a ficar perigosa, mais estreita, com mais áreas de risco e desfiladeiros de tirar o fôlego (bem clichê, mas é a melhor forma que encontrei pra explicar). Um erro e a queda poderia ser fatal (clichê de novo, mas…). Continuamos com muito cuidado. Um grande pedaço da trilha tinha cordas de proteção e em alguns lugares específicos tinham correntes presas na rocha para dar maior suporte e segurança.

O aviso mostrava que havia perigo de deslizamentos de terra. Mesmo com a proteção de concreto, dava pra ver que em algumas partes, nem ela foi suficiente para proteger a trilha das pedras.
O aviso mostrava que havia perigo de deslizamentos de terra. Mesmo com a proteção de concreto dava pra ver que em algumas partes não dava pra proteger a trilha das pedras que caiam.

Em outros trechos onde o deslizamento de pedras era constante, a trilha foi recoberta com concreto ou túneis que passavam por dentro da montanha para aumentar a segurança. Em outros lugares, somente uma placa informava que estávamos em uma área de deslizamentos, e era só isso! Boa sorte amigão!

Pra completar, já estávamos bem cansados, querendo chegar logo na cabana, tomar banho, jantar e descansar. O peso da mochila já incomodava nessa hora. Após contornar uma montanha, quando faltava cerca de quatro quilômetros e meio de trilha, conseguimos avistar a Cabana Europa Hut. Ela estava ela, bem longe, pequena, sozinha, no alto do vale de Mattertal. Isso nos animou bastante. A gente pensou que estava bem perto! Só que não!

A gente andava, andava e andava, e a sensação era de que a gente não saía do lugar. Paramos para descansar, comer algumas barrinhas de cereal e tomar água. Olhando o mapa, faltavam poucos quilômetros, coisa pouca… Mas por que que quando a gente andava a sensação era de que a Cabana não chegava? Primeiro baque no ânimo!

Continuando depois de alguns quilômetros percebemos que a trilha que o mapa mostrava não era a mesma que a gente via na realidade. A gente teve que pegar um “desvio” que aumentou um pouco a quilometragem do dia. Segundo baque no ânimo! A nova trilha nos levaria para a famosa ponte Charles Kuonen-Hängebrücke, a maior ponte suspensa por cabos de aço do mundo. Eram 494 metros de comprimento. Vou repetir, quase meio quilômetro de ponte suspensa!

Dá pra ver o outro lado?
Dá pra ver o outro lado?

Depois de alguns minutos a mais de trilha, lá estávamos nós na ponte. Era imensa. O jeito é ir e desejar o melhor. O vento batia forte naquele final de tarde e mesmo confiando na engenharia e no bom estado de conservação da ponte, batia um medo porque a ponte balançava bastante. Gabriela foi na frente e eu logo em seguida. Mal havia espaço para uma pessoa. Uma mulher veio na direção oposta e o jeito foi se espremer na lateral da ponte pra dar a passagem e torcer pelo melhor.

Gabriela me confessou depois que atravessou a ponte rezando. Atravessei rindo, meio que não querendo acreditar que estava com medo. Foi uma experiência incrível. A ponte continuava balançando e a essa altura, já não dava pra ver a cabana Europa Hut. Estaríamos errados? Onde estava o nosso destino? Na minha cabeça, era só atravessar a ponte e rapidamente estaríamos lá.

Agora dá pra ver melhor o comprimento da ponte! Daqui até a cabana Europa Hut seriam cerca de 200 metros de subida.
Agora dá pra ver melhor o comprimento da ponte! Daqui até a cabana Europa Hut seriam cerca de 200 metros de subida.

No final da ponte, ao olhar pra cima, vimos um morro com uns 200 metros de altura. Verifiquei o mapa no celular e as direções indicavam que teríamos que subir o morro. Terceiro baque! E esse veio com força. A placa indicava 30 minutos de caminhada. Fomos subindo reclamando de tudo e de todos, xingando a trilha de tudo que era nome. Isso de alguma forma nos manteve focados na subida.

Cabana Europa Hut

Cabana Europa Hut - nossa hospedagem no primeiro dia de trilha.
Cabana Europa Hut – nossa hospedagem no primeiro dia de trilha.

Depois de muito esforço, enfim havíamos chegado na cabana. Agora você me pergunta se a gente conseguiu chegar vivo. A resposta é sim, estávamos vivos, mas destruídos de cansaço. Cansados, abalados físico e mentalmente. Deixamos as botas e os trekking poles na entrada e fomos atendidos por uma das filhas do senhor que administrava a cabana. Ela nos mostrou a cabana, explicou como tudo funcionava e nos levou até um dos dormitórios. Foi uma recepção bem atenciosa (o que sentiríamos falta em outras cabanas mais pra frente). Fomos para o quarto deixar as mochilas e se preparar para o jantar. Antes disso, sentamos em uma mesa do lado de fora, de frente para as montanhas, pedimos uma cerveja e descansamos um pouco. Foi a cereja do bolo de um dia cansativo e de muito esforço.

O jantar foi servido às 18h30 como informado. O lugar nas mesas era marcado, então tivemos que nos espremer entre outras pessoas. Algumas pessoas já conversavam como se fossem amigas de longa data. A gente? A gente estava cansado! Repensando em tudo! Deveríamos continuar o trekking? Qual era o propósito disso tudo? Estamos carregando muito peso? Estamos refletindo muito? Devido a esse tanto de reflexões, acabamos ficando mais na nossa, conversando entre a gente e discutindo os próximos dias. A conversa só foi cortada pelo jantar. Nos serviram uma sopa de entrada, purê de batatas, cenouras e carne de vaca como prato principal e um creme delicioso de milho com chantilly de sobremesa.

Depois do jantar, e pra levantar um pouco a dignidade (heheh) resolvemos tomar um banho. O interessante aqui é que o sistema de chuveiros da cabana era cronometrado e pago. Se não me engano, eram 5 francos por 2-3 minutos de banho. O tempo era controlado por um interruptor que desligava o fornecimento de água e parava o cronômetro. Mais pra frente percebemos que esse era o sistema em todos os refúgios e cabanas. Compramos uma moeda e com muito racionamento e perspicácia, conseguimos os dois tomar banho de forma decente (ou quase). Voltamos para o quarto, arrumamos as coisas e dormimos. No dia seguinte, a gente teria que decidir em continuar pela Europaweg ou descer diretamente para Randa, a cidade mais próxima. Será que a gente continuou firme no trajeto? Será que a gente se rendeu? Decisões a parte, o que a gente tinha certeza era que precisávamos dormir e descansar.

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