Traversée des McGerrigle - Dia 1 - Mont Jacques-Cartier e camping la Camarine

Traversée des McGerrigle – Dia 1 – Mont Jacques-Cartier e camping la Camarine

Nossa segunda visita à Gaspésie! Na primeira, tivemos uma bela surpresa conhecendo o Parc National de la Gaspésie e conquistando o Mont Albert, em uma trilha de mais de 18 km. Dessa vez, a gente decidiu se desafiar um pouco mais. Decidimos fazer um trekking de dois dias totalizando 25 km e de quebra conhecer duas das montanhas mais famosas e entre as maiores do Québec, o Mont Jacques-Cartier (1268 m) e o Mont Xalibu (1120 m). Tudo isso, por dentro do território dos ursos negros, alces e caribus.

O trekking que a gente resolveu se aventurar se chama Traversée des McGerrigle. O trekking é dividido oficialmente em três dias, mas pode ser feito tranquilamente em dois. No primeiro dia, são 8,6 km, saindo do ponto de partida da trilha até o Mont Jacques-Cartier, passando pelos montes Dos-de-Balaine, pelo próprio Mont Jacques-Cartier, contornando o Mont Comte e dormindo no camping La Camarine. No segundo dia, são 14,7 km, saindo do camping La Camarine, passando pelo Mont Xalibu e pelo Lac aux Américans, terminando no centro de acolhimento do parque.

Mais sobre a Traverssé de McGerrivle

McGerrigle é a principal cadeia de montanhas que faz parte das montanhas Chic-Chocs. Além disso, essa sessão de 25 km faz parte da famosa IAT (International Appalachian Trail ou Tilha Internacional dos Apalaches), que atravessa a costa leste dos Estados Unidos e termina no Canadá, mais precisamente na província de Terra-Nova e Labrador. São no total mais de 3000 km de trilhas!!!! É trilha pra perder de vista.

Agora a pergunta que não quer calar… Como chegar ao começo da trilha? A Sepaq, instituição que administra o parque, disponibiliza um ônibus (navette em francês) que te leva do centro de acolhimento do parque (setor Mont Albert) até o início da trilha. O ônibus sai às 9h da manhã e chega às 10h e é preciso reservar o assento com antecedência. São mais de 40 km em estrada de chão até um pequeno estacionamento de onde você inicia a trilha até o Mont Jacques-Cartier. Esse ônibus também faz o trajeto contrário no período da tarde (saindo 16h do início da trilha até o centro de acolhimento do parque – Setor do Mont Albert). Mais detalhes e informações de como reservar o assento aqui.

Início da trilha até o Mont Jacques-Cartier

A gente chegou bem tarde no Parc National de la Gaspésie, mais precisamente no Camping do Mont-Albert. Eram 21h e só deu tempo de armar a barraca, colocar as coisas dentro, escovar os dentes e dormir. No dia seguinte, começaríamos o nosso trekking de dois dias pela Traversée des McGerrigle.

O que levamos para o trekking na Traversée des McGerrigle

Pra esse trekking pela Traversée des McGerrigle, a gente levou o que normalmente se levaria para um trekking autônomo de poucos dias. No total, a minha mochila ficou com 11 kg e a da Gabriela ficou com 8 kg. O peso estava ideal para os dois dias e não dava pra tirar mais nada. Tudo ali era extremamente necessário.

Nosso acampamento no camping do Mont Albert, Parc National de la Gaspésie.
Nosso acampamento no camping do Mont Albert, Parc National de la Gaspésie.

Acordamos bem cedo, arrumamos as coisas e preparamos o café. A gente tinha que chegar 30 minutos mais cedo do horário da partida do ônibus que nos levaria até o início da trilha. Tudo estava indo como planejado até ali e as 8h30 estávamos no ponto de espera do ônibus. Entramos na fila, colocamos as máscaras (pandemia) e tivemos nossos tickets conferidos. Tudo certo e uma hora depois, estávamos no início da trilha. Vimos poucas pessoas com mochilas grandes. Isso indicava que a maioria iria somente até o Mont Jacques-Cartier e voltaria para o ponto de partida (até essa altura a gente não sabia se iria dormir sozinhos no camping ou se teríamos companhia).

Ônibus que nos levou do centro de acolhimento do parque até o início da trilha.
Ônibus que nos levou do centro de acolhimento do parque até o início da trilha.
Início da trilha pela Traversée des McGerrigle e também até o cume do Mont Jacques-Cartier.
Início da trilha pela Traversée des McGerrigle e também até o cume do Mont Jacques-Cartier.

Começamos a subida por uma trilha bem irregular, por dentro da floresta, com muitas pedras e uma subida constante. As árvores cobriam a vista e a essa altura, ainda não era possível ver as montanhas ao nosso redor. Uns dois quilômetros mais pra cima, as árvores foram ficando menores e já dava pra ver à direita o Mont de la Passe, mas nem sinal do famoso Mont Jacques-Cartier.

Pequeno desvio que levava ao Lago à Rene. A gente deixou a visita pra próxima e continuo a trilha rumo ao cume do Jacques-Cartier.
Escadaria que leva ao cume do Mont Jacques-Cartier.
Daque pra frente, a trilha era praticamente a mesma: pedras, vegetação rasteira e muito, mais muito vento.

Continuando a trilha, chegamos a uma bifurcação que levava até o Lac à René (à direita) e para o cume do Mont Jacques-Cartier (à esquerda). Continuamos até aparecer uma grande escadaria de madeira e pedras. Já não havia nenhuma árvore para cortar o vento, que nesse ponto aumentou de intensidade e já era tão forte que conseguia empurrar a gente em alguns momentos. Colocamos os nossos casacos corta-ventos e continuamos com o vento aumentando a medida que ganhávamos altitude.

O cume do Mont Jacques-Cartier

Parece paisagem de outro mundo.
Traversée des McGerrigle - Dia 1 - Mont Jacques-Cartier e camping la Camarine
Quilômetros finais até o cume do Mont Jacques-Cartier.

Finalmente, entramos em uma parte plana, rochosa e de perder de vista. Era o Mont Dos-de-Baleine (costas de baleia), como o nome diz, era tão plano e branco que parecia de fato as costas de uma baleia. De lá, já era possível ver o cume do Mont Jacques-Cartier, 1,5 km mais a frente. A trilha era marcada por pequenas pirâmides de pedra e delimitada no chão com rochas. Não era permitido sair do trassado, pois essa região é protegida e casa dos famosos Caribus que se alimentam da vegetação alpina exclusiva dessa região.

Mais sobre o Mont Jacques-Cartier e os Caribus

Fonte: Sepaq – Parc National de la Gaspésie.

O Mont Jacques-Cartier é a sétima montanha mais alta do Québec com 1268 metros de altura. Mais impressionante que a altura é o que o você encontra no seu cume. O cume do Mont Jacques-Cartier e das montanhas ao redor é a casa do Caribu. Essa espécie em particular está ameaçada de extinção e a Sepaq introduziu medidas para ajudar na sua preservação, como períodos de utilização de certas sessões do parque, fechamento da montanha entre as 16h e 6h, delimitação da trilha, dentre outras coisas. Infelizmente, a gente não viu nenhum Caribu durante a nossa visite ao Mont Jacques-Cartier.

Observatório situado no cume do Mont Jacques-Cartier.
Banheiro químico no cume do Mont Jacques-Cartier.

Continuamos a subida lutando contra o vento forte, mas finalmente a gente tinha chegado no cume do Mont Jacques-Cartier. Lá, existia um pequeno observatório e vários banquinhos posicionados estrategicamente com o objetivo de cortar o vento e possibilitar um momento de tranquilidade no cume. Também havia um pequeno banheiro químico que se misturava com a vista incrível das montanhas ao redor. Era bem parecido com o cume do Mont Albert (veja mais aqui). A galera da Sepaq parece gostar de colocar banheiros em posições com vistas incríveis (hehehe).

A gente se sentou em um desses banquinhos e tirou as nossas barrinhas de cereais e alguns petiscos e começou a comer. Ficamos por volta de 20 minutos no cume antes de partir. A gente queria chegar cedo no camping pra preparar tudo e descansar para o próximo dia, que seria mais longo e com uma descida de mais de 800 metros até o centro de acolhimento do parque (setor do Mont-Albert).

Rumo ao camping La Camarine

Início da descida e da trilha até o nosso camping. O aviso dizia que dali pra frente só era pra trilhas de mais de um dia.
Pedras empilhadas que indicavam o caminho.

Iniciamos a descida e o vento não parava um segundo sequer. Pra piorar, a trilha era por cima de pedras relativamente grandes. Rochas empilhadas indicavam por onde ir, mas o caminho entre elas não era bem definido. Era somente passar pelas pedras na direção de um desses montinhos e fazer o mesmo até a próximo e assim por diante.

Lembro que conversando com Gabriela pela trilha (ou tentando, porque o vento era tão forte que ficava difícil ouvir o que o outro falava), a gente comentou que essa descida pelas rochas e a paisagem em geral lembrava muito a paisagem da Suíça (veja mais aqui). Isso trousse uma energia a mais, um ar de familiaridade, uma paz e um incentivo maior pra continuar e aproveitar cada passo na trilha.

As pedras parecem pequenas, mas quando se chega perto, são da nossa altura!
Quilômetros finais até o camping La Camarine.

Continuamos pelas pedras e a medida que descíamos, as árvores começavam a aparecer timidamente. Isso já ajudava a cortar um pouco o vento. 2 km depois, chegamos a um pequeno lago que tivemos que contornar subindo e descendo por pedras enormes. Dali, bastava contornar o Mont Comte pela sua face sul, e continuar por cerca de 2 km por dentro de mata fechada e passando por pequenos lagos até chegar ao nosso destino do primeiro dia: o camping La Camarine.

Montando acampamento e se preparando para o segundo dia de trekking

Chegamos no acampamento eram umas 14h. A gente teria tempo suficiente pra arrumar tudo e descansar! Ponto pra gente! O camping tinha várias plataformas de madeira para as barracas, um pequeno banheiro químico e por volta de uns 100 m de là, uma pequena corredeira para pegar água “potável”. O banheiro também servia como depósito de comida. Sim, você não pode dormir com comida ou qualquer coisa com odor dentro da barraca ou das mochilas. Isso pode atrair animais como guaxinins, coiotes e até ursos.

Como proteger a sua comida de ursos e outros animais

Quando você vai dormir no meio do mato, é importante tomar algumas precauções pra garantir uma boa noite de sono e evitar visitas indesejáveis. É preciso lembrar que você está dormindo na casa dos animais selvagens. Aqui na América do Norte, e mais precisamente no Québec, a principal “ameaça”, é o urso negro. É aconselhável deixar toda a comida e objetos com cheiro (sabonete, pasta de dentes, etc.) dentro de um saco e longe da sua barraca. O mais aconselhável é amarrar esse saco em uma corda e o pendurar em uma árvore a pelo menos 6 metros de altura e a 30 metros ou mais de distancia da sua barraca. Se não for possível, existem contêineres plásticos anti-ursos que você pode deixar afastado da barraca e que eles não vão ser capazes de abrir (ou pelo menos na teoria não).

No nosso camping eles recomendaram deixar a comida dentro do banheiro químico, que ficava relativamente afastado do local das barracas.

Outra coisa importante é nunca preparar a comida perto da barraca. Essa dica é mais por precaução. A gente mesmo preparou e não aconteceu nada. Mas se você quiser evitar a qualquer custo a visita do Zé Colmeia e do Catatau, tente preparar a comida e se alimentar um pouco longe da barraca. Lembre-se de sempre ter em mãos um spray anti-ursos (se o parque permitir) para o caso extremo de um ataque eminente!

Banheiro químico do camping usado também pro armazenamento da comida durante a noite.

Escolhemos uma plataforma não tão próximo da trilha, mas também não tão enfiada na floresta. Ali a gente armou a barraca, colocou as coisas dentro (sacos de dormir, colchões, travesseiros, spray de pimenta contra ursos, casacos, água, e tudo que a gente ia precisar durante a noite).

A famosa fonte de água potável perto do nosso camping.

Antes de preparar o jantar, a gente desceu uns 100 metros de trilha até o riacho para pegar água para cozinhar. Depois de colocar a água dentro da camelback, vimos que ela estava ligeiramente marrom! Como a gente tinha água limitada, preferimos só usar a água do riacho para cozimento. Mesmo assim a gente colocou uma daquelas pastilhinhas de purificação da água só para garantir. Foi com essa água que preparamos o jantar e o nosso café da manhã do dia seguinte.

Para o jantar, a gente levou uma daquelas comidas prontas que basta colocar água quente e deixar por alguns minutos pra ficar pronta para consumo. Esse tipo de comida é o ideal pra trekkings, pois são leves, saborosas e com muitas calorias. A gente levou uma da Backpacker’s Pantry, mais precisamente Chana Masala e também fez um chazinho pra acompanhar. Foi o jantar perfeito depois de vários quilômetros de trilha.

Durante a refeição, mais pessoas começaram a chegar no acampamento, ocupando assim as plataformas vazias. Um casal que foi em direção a plataforma ao lado da nossa e começou a puxar assunto:

— “Oi! tudo bem? Vocês estão vindo de onde?”, perguntaram eles.

— “Do Mont Jacques-Cartier. E vocês?”.

— “Então vocês estão fazendo o caminho contrário! Que legal! A gente está vindo do camping do Mont Albert.”.

Ficamos meio sem saber porque eles falaram “sentido contrario”. A gente estava fazendo o sentido indicado da traversé des McGerrigles. Eu tinha um palpite, mas…

— “Quantos dias vocês já estão na trilha?”, perguntei.

— “No total 7 dias e a amanhã vai ser o último”. Foi aí que caiu a ficha de que eles estavam fazendo a parte da IAT (International Appalachain Trail) dentro do Québec. Eles continuaram a conversa…

— “A trilha de onde vocês vinheram é tranquila?”.

— “É, mas exige um pouco mais de atenção. Tem bastante vento e a parte final é praticamente rocha sobre rocha! Nada muito técnico, só ter um pouco de atenção e paciência…”, completei.

— “A gente veio pelo Mont Xalibu e é a mesma coisa. Muito vento e muita pedra, mas nada complicado”.

O papo continuou até o momento que eles foram arrumar a barraca e se preparar para dormir. Não sei vocês, mas adoro essa troca de experiências na trilha. Ninguém quer se achar melhor do que ninguém. As pessoas se ajudam e é isso!

Não repara na bagunça…

Bom, o sol foi se pondo, deixando o céu meio rosa com azul. De onde a gente estava, parecia um cenário de conto de fadas. Não tem como explicar melhor. Foi com esse cenário que colocamos as botas e os trekking poles do lado de fora, fechamos a barraca e nos preparamos para dormir. O dia seguinte seria longo e a gente queria fazer com toda a energia possível!

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