O Tour du Mont Albert: desbravando o topo da Gaspésie

O Mont Albert fica no Parc National de la Gaspésie, uma reserva ecológica imensa localizada no coração da Gaspésie e repleta de trilhas e atividades ao ar livre. Ele é uma das maiores montanhas do Québec, sendo composta por dois cumes. O primeiro, o cume norte à 1088 metros e o cume sul, à 1154 metros. Somente o cume norte é acessível devido à necessidade de conservação do lugar.

Daí você me pergunta, por que conservação? O Mont Albert é um lugar único na região. No seu cume, existe um planalto enorme, chamado de La Table à Moïse (a mesa de moisés) com uma vegetação de tundra alpina típica e onde vivem os Caribous de la Gaspésie, uma espécie ameaçada de extinção. Grande parte da trilha pelo planalto é limitada e o acesso fora dela é estritamente proibido.

A forma mais simples de conhecer o Mont Albert é através da cidade de Sainte-Anne-des-Monts, via autoroute 299. O estacionamento da trilha fica por volta de 2 horas da cidade. Existe também a opção de você dormir no próprio parque em um hotel, refúgios ou até mesmo acampar. Você vai encontrar mais informações sobre no site da Sepaq – Parc National de la Gaspésie.

A trilha mais procurada para os que querem conhecer o Mont Albert é a Le Tour du Mont Albert, uma trilha circular que pode ser feita em ambos os sentidos e que possui por volta de 18 km e elevação de aproximadamente 870 metros. Se você quer uma trilha menor, você pode fazer a primeira parte, ou a Mont Albert (versant Nord), subindo pela face norte da montanha e descer pelo mesmo caminho, em um total de 13 km com 850 metros de elevação.

As duas primeiras placas (de cima para baixo) indicam as duas trilhas possíveis: Le Tour du Mont Albert e Le Mont Albert (versant norte).
As duas primeiras placas (de cima para baixo) indicam as duas trilhas possíveis: Le Tour du Mont Albert e Le Mont Albert (versant norte).

Se você escolher pegar a trilha completa, você pode fazê-la tanto no sentido anti-horário (mais popular) como no sentido horário. Na primeira opção, você sobe pela face norte (cerca de 5 km de subida pesada), chega ao cume, passa pelo planalto e faz uma descida gradual, mas quase que interminável (cerca de 10 km) até chegar ao início da trilha novamente. No sentido contrário, a subida é mais gradual pela face sul da montanha, com uma descida mais acentuada. Independente do sentido que você vá fazer, tenha em mente que vai ser um hiking bem exigente que não e aconselhado para pessoas sem muito experiência em montanha ou trilha desse tipo.

Primeiros 5 km dentro da floresta boreal

Centre de Découverte et de Service do Parc National de la Gaspésie.
Centre de Découverte et de Service do Parc National de la Gaspésie.
A trilha do Tour du Mont Albert começa do outro lado da rua. Ao fundo, o Mont Albert.
A trilha do Tour du Mont Albert começa do outro lado da rua. Ao fundo, o Mont Albert.

Estacionamos o carro no Centre de Découverte et de Service (coordenadas). O início da trilha fica logo depois de atravessar a autoroute 299, não tem erro. Escolhemos fazer a trilha completa, ou seja, os 18 km, e em sentido anti-horário, deixando a descida mais gradual para o final. Pegamos a trilha da direita e seguimos por uma subida de 5 km bem intensa. No começo, eu diria até o terceiro quilômetro, a vegetação era basicamente composta de pinheiros e cedros. O cheiro que os cedros deixavam era surpreendente. Parecia que a gente estava em uma loja de sabonetes ou de aromas naturais. É difícil de explicar. Isso motivava a gente a respirar mais fundo e a não perceber a dificuldade da trilha.

Vegetação totalmente diferente do início da trilha.
Vegetação totalmente diferente do início da trilha.

Continuando, entramos agora em uma floresta mais densa, repleta de samambaias rasteiras, mais úmida e com maiores desníveis. Essa parte só acabaria perto do cume, dando espaço a uma vegetação mais espaça e com poucas árvores e por fim, somente pedras e mais pedras. Essa última parte foi intensa. Nos últimos 50 metros, tivemos que subir por uma escadaria de pedras interminável. A única coisa que mantinha a gente focado era saber que o cume estava logo ali.

Parte final da subida até o cume norte do Mont Albert.
Parte final da subida até o cume norte do Mont Albert.

Vencida a última grande subida, entramos em uma parte descampada. Dali já era possível ver o cume, mais o que mais surpreendia, era a vista! Virei para trás, tomei fôlego, e fiquei parado por alguns segundos tentando entender um pouco o que eu estava vendo. O céu nem estava tão limpo assim, mas confesso que com as nuvens, ficou ainda mais lindo! O vento começou a bater mais forte e a temperatura caiu bastante. Colocamos os casacos corta-vento e nos dirigimos ao cume.

Chegando ao cume Norte do Mont Albert

Vista do planalto La Table à Moïse do cume do Mont Albert.
Vista do planalto La Table à Moïse do cume do Mont Albert.

O cume do Mont Albert foi o mais incrível que a gente já esteve em todos os hikings que fizemos no Québec (veja mais aqui). Mesmo tendo acesso somente ao cume norte, o lugar não era menos incrível. Era imenso, intimidador, diferente. Cada canto tinha uma vista diferente. O que mais impressionou, entretanto, foi o planalto La Table à Moïse. Como um planalto daquele tamanho podia existir no topo de uma montanha? Era de explodir a cabeça de tão lindo e diferente. De longe, dava pra ver a trilha que levava a descida, mas a gente só conseguia ver os pontinhos pretos das pessoas que chegavam e deixavam o planalto.

Fala aí se não é um dos banheiros mais bem localizados que você já viu?
Fala aí se não é um dos banheiros mais bem localizados que você já viu?
Refúgio Le Rabougris.
Refúgio Le Rabougris.

Escolhemos um lugar de frente para o vale a oeste, nos sentamos e nos reabastecemos antes de sair e explorar o cume como de hábito. Após o almoço, começamos a exploração. No cume, você vai encontrar o refúgio Le Rabougris e um pequeno banheiro químico. O refúgio não tem nada de muito especial. O que chama mesmo a atenção é o tal banheiro que fica em um lugar incrível para uma boa foto! Agora vai de você querer aparecer no seu Instagram perto do banheiro químico da trilha! hahaha!

O PLANALTO LA TABLE À MOÏSE e a GRANDE CUVE

Era hora de passar pelo famoso planalto La Table à Moïse. A trilha dava lugar a uma plataforma de madeira que se estendia por algumas centenas de metros, até a Grande Cuve. Foi um pequeno descanso para as pernas antes da batalha final: mais de 12 quilômetros de descida. Era uma descida em trilha rochosa por entre as montanhas, que contorna e atravessa algumas corredeiras formadas pelo degelo da neve das montanhas ao lado.

As pedras foram aparecendo. A trilha era composta de pedras soltas, areia e cascalho, tudo em uma cor meio marrom-avermelhada. Me lembrou bastante a descida do Illiniza Norte (veja o relato aqui). Cada passo tinha que ser calculado com cuidado. As pedras eram irregulares, algumas cobertas com areia ou molhadas pelas corredeiras que passavam por perto. Por incrível que pareça, mesmo não havendo muita sinalização nessa parte, não era difícil de saber que estávamos no caminho correto. A gente conseguia ver lá de cima a trilha mais abaixo por entre as árvores. Era somente escolher uma direção e seguir, pedra por pedra.

Por mais que a trilha tenha exigido bastante da gente, a beleza das montanhas ao redor tirava essa pressão. Fazia o caminho ficar mais leve. A gente parava várias vezes pra olhar pra trás e admirar. Algumas vezes imaginando fazer a trilha no sentido inverso ou quem sabe no inverno. Gabriela comentou que havia uma escola de técnicas de alpinismo durante os meses de frio. Você tem dúvida que a gente vai se inscrever? Eu não!

Os quilômetros intermináveis dE desCida do Mont Albert

Seguindo a descida e chegando em um nível mais abaixo da Grande Cuve, passamos por um pequeno vale de pedras que dava acesso à última e mais longa parte da trilha. A placa dizia que ainda faltavam 9 quilômetros até o início da trilha. Olhei pra Gabriela e ela pra mim e mentalmente a gente disse: “What?”. Como ainda faltavam 9 km se a gente já tinha andado um bom bocado, vencido uma subida, atravessado o planalto e descido quase que totalmente a Grande Cuve? Isso abalou um pouco o psicológico. As pernas já estavam cansadas. Mas o que a gente podia fazer? Era continuar e ponto.

Pra complementar a dificuldade, a trilha era repleta de rochas. A gente tinha que desviar quase que a cada segundo, escolhendo o melhor ponto para colocar o próximo passo. Foram bons quilômetros judiando das pernas. Mesmo assim, sobrava disposição pra tirar fotos e aproveitar a vista. A trilha contornava o rio e o barulho das águas já era o suficiente pra acalmar a mente e aumentar a concentração na trilha.

Em um determinado momento, e graças a Deus porque já não estava aguentando, as pedras foram sumindo e a trilha ficou menos complicada. Após vários quilômetros de trilha, a gente passou pelo último refúgio do dia, o La Serpentine. A gente tava bastante cansado. Só foi o tempo de tirar uma foto e continuar.

Refúgio La Serpentine.
Refúgio La Serpentine.

A partir du Lac du Diable, a trilha ficou ainda mais tranquila, o que foi um alívio pras pernas e pra mente. Faltaria ainda passar pela famosa Chute du Diable, uma cachorreira que lembrava bastante as nossas da chapada. Nessa hora a gente tava tão cansado que paramos no mirante somente pra beber água e continuar a trilha. Os quilômetros finais foram um pouco diferente. A descida ficou mais íngreme e tivemos que nos apoiar nas árvores pra não pisar em falso. Tirando isso, conseguimos chegar sãos e salvos no início da trilha com um sorriso no rosto de ter conquistado mais uma montanha, o Mont Albert.

Conclusão sobre O Mont Albert

Foi um verdadeiro desafio, desses que a gente tava até esquecendo que o corpo era capaz de vencer. Me lembrou bastante os dias mais puxados do trekking pela Walker’s Haute Route (leia mais aqui). Foi uma trilha que nos proporcionou tudo que um bom hiking deve proporcionar: lindas vistas, bons desafios e muito contato com a natureza. Pode ter certeza que a gente vai voltar pra desbravar mais o Parc National de la Gaspésie, muito em breve.

MAIS INFORMAÇÕES:

Sites úteis: 

Como chegar: Carro. Seguem as coordenadas do estacionamento: 48.946649, -66.120804.

Custo: cerca de 8,90 CAD por pessoa (estacionamento gratuito).

Horário de funcionamento: consulte o site do parque para saber os horários de funcionamento para cada estação/período do ano, principalmente durante a pandemia. O Tour du Mont Albert, por exemplo, é aberto somente do meio junho ao final de setembro (para ajudar na proteção dos Caribus).

Dificuldade: moderada.

O que levar: tênis/botas e roupas apropriados para hiking e para a época do ano correta. Bastões de trekking são altamente recomendados. Leve um lanchinho (pão, bolo, banana, etc.), umas barras de cereais e pelo menos 1 litro de água. Protetor solar, repelente e óculos escuros também são importantes.

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