Um relato sobre o Dia D: Cemitério Americano

Nosso roteiro pela França – Praias do Dia D

Conhecer os locais do Dia D é o tipo de turismo que nos tira da nossa zona de conforto e nos mostra um mundo não tão estável e agradável como estamos acostumados. É, na verdade, um turismo real, intenso. Foi exatamente isso que vimos e sentimos na Normandia. Nesse roteiro pelas praias do Dia D, você vai sentir um pouco do que a gente viveu durante a nossa visita.


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Como chegamos

Pra chegar nas praias do Dia D, a melhor forma possível é de carro. Lembro que até achei opções de transporte público, mas se você quer ver muita coisa em pouco tempo, o carro é a melhor opção. O ponto base de exploração é a cidade de Caen ou Bayeux. A gente alugou um Fiat 500 em Caen, na agência Europcar Caen (36 Place de la Gare), que fica pertinho da estação de trem de Caen.

Onde nos hospedamos

Depois de fazer todo o roteiro pelas praias do Dia D, a gente se hospedou no hotel Formula 1 de Caen. O Formula 1 é a rede de hotéis de baixo custo da rede Accor (mesma dona do Ibis, e por aí vai). Os quartos são bem simples, mas limpos, e o café da manhã está incluso. Pra esse tipo de roteiro onde você vai conhecer várias cidades de carro no interior da França, o hotel Formule 1 vai ser sem dúvida uma das melhores escolhas.

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O que fizemos

Pointe du Hoc

Escolhemos visitar Pointe du Hoc por seu papel estratégico no Dia D. Foi bombardeada por horas com o objetivo de neutralizar a resistência alemã e possibilitar uma tomada por terra mais rápida. Estávamos empolgados com a escolha, mas não tínhamos ideia do quão impactante seria conhecer o local.

Já na entrada, toda nossa empolgação foi colocada de lado e caiu a fixa que nada seria de brincadeira. Imensos blocos de concreto traziam esculpidos em letras maiúsculas, frases que me deixaram um pouco abalado.

“(…) Eles lutam não pela luxúria da conquista. Eles lutam pelo término da conquista. Eles lutam para libertar… Eles anseiam, principalmente pelo fim da batalha, pelo retorno ao refúgio de suas casas.”

Franklin D. Roosevelt

“(…) Nossa dívida para com esses homens heróicos e mulheres valentes em serviço de nosso país nunca poderá ser retribuída. Eles conquistaram nosso gratidão imortal. A América nunca se esquecerá de seus sacrifícios…”

Harry S. Truman

Como se não bastasse, uma placa avisava mais pra frente que ainda poderia haver bombas não detonadas e que estávamos por nossa própria conta e risco. Entendemos rapidamente o porquê da mensagem ao ver os primeiros buracos causados por elas, que iam se multiplicando, e no final, estavam por toda a parte, como um verdadeiro queijo suíço.

Um relato sobre o Dia D: Pointe du Hoc

Minha cabeça dava nós. Era surreal ver tudo aquilo e imaginar, como em um filme, o que tinha acontecido ali. Mesmo décadas depois, os sinais ainda eram evidentes. Como uma cicatriz ao ar livre que fazia lembrar a todos, os horrores de uma guerra.

Seguimos por entre as crateras em direção aos bunckers, ou o que restava deles. Salas parcialmente queimadas. As marcas de bala ainda eram visíveis nas paredes. Imagino que nenhum trabalho de revitalizarão havia sido feito, justamente para passar uma mensagem de respeito à história. Continuo me arrepiando só de pensar. Em um dos bunkers mais preservados, era onde também estava localizado o monumento em homenagem aos soldados de elite norte-americanos.

“Aos Rangers do 116° batalhão de infantaria que retomaram Pointe du Hoc nos dias 6, 7 e 8 de junho de 1944 sobre o comando do Coronel James E. Rudder da 1ª divisão americana.”

Olhamos para o horizonte e vimos o canal da mancha. Por alguns instantes, pensei que poderia esquecer o passado sangrento de Pointe du Hoc e se perder na beleza da paisagem e da praia. Mera ilusão. Muita coisa passava pela minha cabeça naquele momento. Havíamos acabado o tour por Pointe du Hoc em silêncio, pensativos, penso que em respeito a tudo que esse lugar representou e ainda representa para a história da humanidade.

Omaha Beach

Após visitar Pointe du Hoc, o próximo destino seria Omaha Beach, uma das mais importantes praias do Dia D. Pra quem não sabe, Omaha Beach foi um dos pontos de desembarque dos aliados durante o Dia D. Entretanto, foi aqui que o bicho pegou no pior sentindo da expressão. Os americanos tiveram resistência intensa e mais de 3000 soldados morreram e cerca de 2000 ficaram feridos no desembarque. A praia também ficou imortalizada no filme “O resgate do soldado Ryan”, onde o personagem vivido por Tom Hanks desembarca justamente aqui em busca do último filho vivo (Ryan) de uma família de 4 irmãos. O resto da história você já deve saber.

Um relato sobre o Dia D: Omaha Beach

O mar estava bem recuado. Uma imensa faixa de areia se estendia por centenas de metros, quem sabe quilômetros. A medida que andava em direção ao mar, lentamente, pensava, imaginava, escutava o vento, mas também o silêncio. Ouvia-se somente o barulho do vento e das ondas, nada mais.

Era difícil imaginar que em um lugar tão lindo e calmo como aquele, algo tão terrível tinha acontecido. Por alguns instantes, esquecia que estava em Omaha Beach. Era uma praia como outra qualquer até me deparar com uma estrutura de concreto ou um monumento em homenagem aos soldados que ali morreram.

Enfim, voltando em direção à costa, tive uma brilhante ideia. Porque não levar uma amostra, um pedaço, uma garrafa de areia que seja como lembrança desse momento? Brilhante ideia que me custou mochilas extraviadas para análise química em Paris e uma dor de cabeça com a companhia aérea. Mesmo sem uma lembrança física do lugar, a visita à Omaha ficou definitivamente marcada na minha memória.

Cemitério Americano

Última parada do nosso roteiro pelas praias do Dia D. Esse seria sem dúvida o local com maior carga emocional de todos. Pointe du Hoc e Omaha Beach eram meio que representações de algo que havia ocorrido décadas atrás, coisa de livro de história. Já o cemitério, nos depararíamos com os soldados propriamente ditos, ou melhor dizendo, com seus túmulos. Era mais vida real, algo que não estamos acostumados vivenciar.

Logo na entrada nos deparamos com uma grande exposição de objetos antigos usados pelos soldados no Dia D. Cada item era acompanhado de sua respectiva história. Além disso, vários telões contavam com mais detalhes os acontecimentos. Vídeos antigos, reconstituições, imagens reais. Era como viver novamente os horrores da guerra.

Na saída da exposição, entramos em uma sala redonda, com vários retratos pregados nas paredes e espaçados uniformemente. Era de ex-combatentes e pessoas que perderam, ou melhor dizendo, doaram suas vidas durante o Dia D. Nesse momento, a guia se juntou ao grupo e explicou um pouco mais sobre cada retrato.

Saímos da sala redonda e entramos em um jardim. Era um caminho que passava por um jardim de grama verdinha e bem aparada. Era tudo perfeito. Esse caminho nos levava ao cemitério. Uma imensa bandeira americano tremulava no alto, enquanto embaixo, milhares de lápides de mármore branco em formato de cruz se dispunham, também uniformemente, até perder de vista.

Percorrendo as estradas da França: Praias do Dia D
Um relato sobre o Dia D: Cemitério Americano

Mas não eram somente cruzes… Se o soldado era Judeu, havia uma estrela de Davi e se o soldado era cristão, havia a tradicional cruz. Além disso, se o soldado havia morrido de forma heroica, em sua lápide podia-se ver uma pequena estrela dourada. Esse foi o caso de um dos filhos do presidente americano Franklin Roosevelt.

O hino americano começou a ser entoado em um dado momento. Em sinal de respeito, todos pararam o que estavam fazendo para prestar homenagem aos soldados. Acho que foi a nossa forma de dizer obrigado.  Terminamos o dia com sensação que aquele lugar nos deixou um legado. Muita história se passou por ali, coisas que mudaram o mundo.

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