Acampando no cume do Mont des Morios

Acampando no cume do Mont des Morios

Hoje a gente vai te contar a nossa primeira experiência (de muitas) com camping em um cume de montanha no Québec. A gente resolveu chutar o pau da barraca e ir logo pro modo “avançado”. Decidimos conquistar o cume do Mont des Morios, pela trilha Sentier Expert, e de quebra acampar por lá mesmo. A aposta era alta. Mesmo esperando tempo fechado, a gente estava determinado.

O Mont des Morios

Tá, mas e esse Mont de Morios aí? É uma das montanhas mais famosas da região de Charlevoix, situada ao nordeste da Cidade de Québec. Do cume (915 metros de altura) é possível ter uma visão 360 graus de toda a região, inclusive do rio Saint-Laurent. O Mont de Morios fica dentro de uma reserva ecológica administrada pela Association Loisirs, Chasse & Pêchedu territoire libre – Secteur Pied-des-Monts. Além disso, ele fica em umas das únicas regiões que o camping rustico ou selvagem é autorizado e sem reserva. Isso faz toda a diferença. Em outros parques, os locais de camping são delimitados e na maioria deles, você vai ter que fazer reserva.

Dépanneur du Lac Brûlé.
Dépanneur du Lac Brûlé.

A princípio, o acesso à montanha é pago e o registro de entrada é obrigatório. Entretanto, não existe nenhum guichê de venda dentro do parque ou perto do Mont des Morios. O registro e a compra do cartão de membro anual (10 dólares canadenses por pessoa) é feito exclusivamente no Dépanneur du Lac Brûlé, uma lojinha de conveniência localizada bem no meio do caminho até o estacionamento do Mont des Morios (coordenadas), mais precisamente na cidade de St-Aimé-des-Lacs (coordenadas).

Por fim, você vai encontrar várias opções de trilhas dentro do parque, algumas chegando a mais de 30 km. As mais procuradas são as trilhas Sentier des Morios Nord e Sentier Expert. O que muitos fazem é juntar as duas e criar um circuito, começando pelo Sentier des Morios Nord, subindo pelo Sentier Expert até o cume e fazendo a descida pelo Sentier des Morios Nord novamente até o estacionamento. Os mais aventureiros, encaixam uma noite no cume, fazendo a descida no dia seguinte. Foi o que a gente fez. No entanto, tenha cuidado durante a época de caça (normalmente em outubro), pois as trilhas podem ficar um pouco perigosas.

Os Preparativos

O primeiro de tudo? A gente tinha que organizar o que levar para passar dois dias e uma noite no Mont des Morios. Não queríamos repetir o erro de levar mais do que o necessário (leia mais aqui). Tudo tinha que ser útil ou não entraria na mochila. Depois de ler bastante em vários fóruns e sites pela internet, chegamos à seguinte lista (a maioria é por pessoa, mas tem itens que a gente dividiu o peso ou só um dos dois carregou):

  • Saco de dormir com temperatura conforto de -5 C.
  • Liner pra usar dentro do saco de dormir.
  • Colchão inflável.
  • Travesseiro inflável.
  • Barraca leve para duas pessoas.
  • Lanterna de cabeça.
  • Kit para preparar a comida (bujãozinho de propano, fogãozinho, panela, talheres, pratos, canecas, etc).
  • 2 litros de água por pessoa
  • Barras de cereais (levamos umas 5)
  • Kit de primeiros socorros.
  • Uma segunda pele para as pernas.
  • Jaqueta de fleece leve.
  • Anorak (corta-vento).
  • Jaqueta de pena de ganso.
  • Carregador portátil.
  • Comida para a trilha, pro jantar e para o café da manhã.

No total, a minha mochila completa ficou com 12 kg e a mochila da Gabriela com 8 kg. Não dava pra tirar mais nada!

Dia 1 – Cume do Mont des Morios, acampamento e céu estrelado

Chegando ao estacionamento

Saímos de casa eram umas 10h da manhã. O plano era chegar às 15h30, conquistar o cume por volta das 18h, montar o acampamento lá mesmo e preparar a comida pra curtir o pôr do sol (que seria por volta das 20h) com calma e da forma mais prazerosa possível. A única coisa que podia atrapalhar os nossos planos seria a chuva. Entretanto, a previsão estava ao nosso favor. Chuva somente na madrugada do dia seguinte! Essa era uma boa notícia! A gente teria pelo menos um belo pôr do sol… ou será que não?

Depois de 4h de estrada, a gente chegou ao Dépanneur du Lac Brûlé, onde compramos os cartões de membro e nos registramos. Uma senhora nos atendeu com muita paciência, e após o registro e pagamento, ela nos deu os cartões de acesso, um mapa e nos indicou as direções até o estacionamento da trilha. Seguimos por mais 15 km até o estacionamento, início da nossa aventura.

A trilha até o cume do Mont des Morios

Estacionamento no início da trilha, Mont des Morios.
Estacionamento no início da trilha, Mont des Morios.
Início da trilha até o cume do Mont des Morios.
Início da trilha até o cume do Mont des Morios.

O estacionamento ficava embaixo de uma linha de transmissão de alta tensão. Dava pra ouvir o barulho da energia passando. Era bem assustador. Mais ao fundo, o Mont des Morios, imenso! Não tinha ideia do quão grande era a montanha, até ver ela ao vivo! A gente teria que transpor toda essa altura pra dormir lá em cima! Não sei vocês, mas isso me motivou ainda mais… Saímos do carro e fizemos uma última checagem pra saber se estávamos levando o necessário e deixar tudo que não fosse subir com a gente dentro do carro. A trilha começava logo no final do estacionamento (uma placa informava claramente por onde ir…).

Dica: se precisar ir ao banheiro, o único disponível durante toda a trilha é o do estacionamento. No cume, o banheiro é o da forma natural, como os nossos antepassados faziam e que dispensa maiores explicações.

Primeira bifurcação e início da subida mais pesada.
Primeira bifurcação e início da subida mais pesada.

Era hora! A primeira parte da trilha foi bem tranquila. Foram 2 km de elevação gradual e sem muito esforço, um alívio para os joelhos e pernas que estavam sustentando o nosso peso e o peso das mochilas. Passada a primeira parte, a trilha fazia uma bifurcação à direita e a partir desse ponto, a coisa ficou mais intensa. Foram 150 metros de subida em um pequeno trecho de trilha. Era como subir um prédio de 50 andares de uma vez sem parar. Até esse ponto, a gente tinha esquecido do clima. Não dava pra ver muito bem se fazia sol, se ia chover. A gente estava focado na trilha.

Essa subida foi interrompida por outra bifurcação: para a esquerda, a trilha Sentier Expert (mais puxada) e para a direita, o Sentier des Morios Nord (mais fácil e mais longa). Decidimos ir pelo Sentier Expert no ataque ao cume e no dia seguinte, descer pelo Sentier des Morios Nord. O Sentier Expert como o próprio nome diz, não era para iniciantes. Foi a primeira montanha no Québec que eu vi mais de uma sessão que necessitava a ajuda de cordas pra subir. Pra ajudar (irônico!), a trilha estava úmida, com rochas molhadas e lama pra todo lado.

Última seção de cordas até o cume do Mont des Morios.
Última seção de cordas antes do cume do Mont des Morios.
As nuvens preocupavam, mas no geral, o céu estava bem lindo e as expectativa era de céu limpo perto do pôr do sol.
As nuvens preocupavam, mas no geral, o céu estava bem lindo e a expectativa era de céu limpo perto do pôr do sol.

Depois de passar por várias sessões com a ajuda de cordas, chegamos finalmente na parte final da subida. A floresta foi dando espaço a uma vegetação mais rasteira e a um terreno com mais pedras. Já dava pra ver o céu e as montanhas ao redor. O céu estava parcialmente limpo e o sol se pondo. Eram os ingredientes necessários para um final de tarde perfeito.

Terminada a subida, entramos em um planalto rochoso imenso que se estendia até o cume do Mont des Morios propriamente dito. A partir dali, era somente aproveitar a trilha e as vistas. Já dava pra ver várias pessoas com barracas montadas, algumas mais perto da descida, outros perto do cume. Não tinha lugar exato para o camping.

Cume do Mont des Morios e a famosa passarela de madeira que liga as duas partes da montanha.
Cume do Mont des Morios e a famosa passarela de madeira que liga as duas partes da montanha.

A gente resolveu ir primeiramente até o final da trilha (o cume) e decidir onde acampar na volta. Pra chegar lá, tivemos que passar pela famosa passarela que liga duas rochas perto do cume. Não chega a ser como as escadas que a galera usa no Everest pra passar pelos glaciares, mas lembra um pouco (bem remotamente).

Dica: planeje sua chegada ao cume com antecedência. Ter tempo pra achar um lugar, armar a barraca, preparar a comida e relaxar vai fazer muita diferença. A última coisa que você não quer é ter dor de cabeça e estresse nesse tipo de atividade.

O acampamento e o pôr do sol no cume do Mont de Morios

Depois de várias fotos, era hora de encontrar um lugar pra armar a barraca. Nosso critério foi o seguinte: tinha que ser um lugar sem muita vegetação, com algumas rochas ao redor pra funcionar de corta-vento, com vista para o pôr do sol e o mais importante (eu duvido que você vai adivinhar!)… ter vários pés de mirtilo (blueberry) carregados na proximidade. Sim, o cume do Mont des Morios é lotado de pequenas arvorezinhas selvagens de mirtilo. E melhor, tudo orgânico!

Barraca montada, era só aproveitar o pôr do sol!
Barraca montada, era só aproveitar o pôr do sol!

🍜 Receita do Pad Thai vegano: Se você ficou interessado no rango acima, segue a receita:

Ingredientes:

Vermicelle ou aletria: Eu chamo de macarrão de arroz. Mas na verdade, é um tipo de macarrão bem fino utilizado na culinária asiática. Ele vem normalmente desidratado.
Molho: manteiga de amêndoas, shoyu, óleo de gergelim, água, mais acompanhamentos opcionais (cenoura ralada, cebolinha e coentro).

Modo de preparo:

Você vai colocar o macarrão pra cozinhar em água fervendo e enquanto isso você vai preparar o molho. Coloque uma colher de manteiga de amêndoas, duas colheres de shoyu, uma colher de óleo de gergelim e um pouco de água. Mistura bem. Você também pode acrescentar cenoura ralada, cebolinha e coentro. Depois que o macarrão estiver cozido, coe a água do cozimento e misture o molho com o macarrão. Pronto. Você tem um Pad Thai vegano incrivelmente delicioso. Se quiser, dá pra aproveitar a água do cozimento pra fazer um chazinho!

Depois de ter encontrado o lugar perfeito, armamos a barraca e colocamos tudo que a gente ia precisar pra dormir dentro e fomos preparar o jantar. O sol ia se pondo no horizonte enquanto eu colocava a água pra ferver e o macarrão de arroz dentro da panelinha. A gente preparou um Pad Thai vegano, acompanhado de chá e frutas secas. Posso te dizer que depois de quilômetros de trilha e mais de 580 metros de subida, aquela comida foi a melhor que a gente comeu em anos!!! (pequeno exagero, mas você entendeu meu ponto).

O sol ia desaparecendo lentamente no horizonte. O céu ficava colorido, com tons de laranja, rosa e azul. Fazia tempo que a gente não via uma coisa tão linda como aquela. Mesmo com a previsão para mau tempo na madrugada, a gente teve a sorte de ter um pôr do sol lindo e um final de dia perfeito. Se hoje eu tô escrevendo um post desse tamanho pra falar da nossa experiência é porque foi inesquecível.

Terminando o dia com as estrelas

Sol posto, entramos na barraca e nos preparamos para dormir. E era só silêncio no cume do Mont des Morios. Silêncio esse quebrado por alguma conversa de algum vizinho próximo ou pela própria natureza, através do vento. Daí tive a ideia de sair para ver as estrelas. Fazia muito tempo que eu não fazia isso. Nesse nosso cotidiano em que a gente não tem tempo nem mesmo de olhar pro alto, ver aquele céu limpo, sem nenhuma nuvem, repleto de estrelas (de perder de vista, pra falar a verdade) foi algo surreal.

Pensei em tirar algumas fotos do céu estrelado e vou ser sincero, era a primeira vez que eu tentava isso com a nossa máquina. Fiquei uns 10 minutos fotografando o céu e o resultado era sempre o mesmo: tela preta. Foi quando consegui um ajuste que me deram as fotos acima (elas valem um belo de um comentário ou um compartilhamento do post, não vale?). E foi assim que a gente terminou o nosso primeiro dia no Mont des Morios.

Dia 2 – Ventania, Nascer do sol e retorno

A noite passou de um jeito diferente. Até às 1h da manhã a gente dormiu em períodos. A gente meio que acordava quando ouvia algum barulho alto fora da barraca e depois dormia novamente. Durante a madrugada a temperatura caiu drasticamente. O vento era cada vez mais forte e em alguns momentos fazia a barraca tremer por alguns segundos. O cansaço era maior que a preocupação de ter a barraca arrancada do chão pelo vento, não demorou muito pra gente dormir que nem uma pedra! Durante a madrugada veio a chuva, muito mais tímida do que a gente esperava (e do que foi anunciada)! Tão tímida que a barraca acordou sequinha!

Nascer do sol do alto do Mont de Morios.
Nascer do sol do alto do Mont de Morios.
Preparando o nosso café da manhã.
Preparando o nosso café da manhã.
Passando o cafézin na hora! Não tem coisa melhor, diz aí!
Passando o cafézin na hora! Não tem coisa melhor, diz aí!
Mirtilo colhido na hora pra agregar no nosso café da manhã.
Mirtilo colhido na hora pra agregar no nosso café da manhã.

Acordamos por volta das 5h40, levantamos e saímos para ver o nascer do sol. O dia estava lindo, o sol tímido por trás das nuvens e o céu ainda meio rosa. O café da manhã era mingau de aveia, com chocolate, frutas secas e… os mirtilos colhidos ali mesmo, no cume do Mont de Morios durante o nascer do sol! Quer coisa melhor? Quer? Um cafézinnnnn passado na hora? Também teve! Não preciso dizer que a gente teve um começo de manhã maravilhoso! Até aquele momento, tudo no Mont des Morios tinha nos surpreendido de um jeito bem positivo.

Última foto antes de chegar no estacionamento e dar adeus ao Mont de Morios.
Última foto antes de chegar no estacionamento e dar adeus ao Mont de Morios.

Depois de tomar café iniciamos a descida pela trilha Sentier des Morios Nord, mesmo sendo mais longa, era mais tranquila do que a do dia anterior, ideal para os nossos joelhos. Passamos por vários aventureiros que gradualmente iam deixando suas barracas, recolhendo as coisas e tomando rumo de casa. O resto da descida foi bem prazerosa, cadenciada e com muita conversa fiada. Depois de 6 km de descida, estávamos novamente no estacionamento, prontos para voltar pra casa.

Conclusão sobre o Mont de Morios

Como primeira experiência com camping no Québec, a gente não poderia pedir nem um milimetro a mais. Superou de longe todas as nossas expectativas. Muito do sucesso dessa “expedição” foi devido ao nosso planejamento (escolha dos equipamentos, alimentos, itinerário, etc). Entretanto, o Mont des Morios também nos deu muito como recompensa. Nos proporcionou uma das noites mais incríveis que a gente já viveu em nossas vidas.

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