Último dia na Walker’s Haute Route. O cronograma seria ir de Martigny até Chamonix. Mas tudo tinha que sair como previsto. De Martigny, a gente pegaria um ônibus carpostal até o Col-de-la-Forclaz, de lá começar os últimos quilômetros de trilha até Chamonix. Pra isso, a gente tinha que começar bem cedo.


Leia Mais da Walker’s Haute Route


Acordamos por volta das cinco horas da manhã e às seis, já estávamos na parada do ônibus (o ônibus sairia as 6h05). À essa hora, as ruas estavam vazias e a estação do ônibus não tinha ninguém ainda. Brasileiro que é brasileiro nunca fica relaxado em lugares com pouca gente e com iluminação ruim. É um extinto adquirido. A gente redobra a atenção. Qualquer movimento é suspeito.

World Nomads

Vai se aventurar por aí? Faça seu seguro de viagem com a WorldNomads.com.

Nosso radar de perigo detectou algo no mínimo estranho. Um carro com vidros fumê parou na frente da parada, à alguns metros da gente. Dava pra ver que duas pessoas estavam no carro, esperando alguma coisa. Deveríamos nos preocupar? O carro continuava ali, mesmo com a chegada dos ônibus. Foi quando o nosso ônibus, 213, chegou. A motorista, uma senhora de estatura média, com cabelos louros gastos e bem simpática, desceu, foi em direção ao carro e começou a conversar com as pessoas que estavam dentro. De repente, dois homens barrigudos saem do carro, com roupas brancas e aventais sujos, abrem o porta mala e tiram de lá, sacos e mais sacos de pães frescos. Dava pra sentir o cheirinho… A lembrança das padarias brasileiras veio imediatamente. Os homens começaram a colocar os sacos dentro do ônibus. Descobrimos depois que o ônibus levaria os pães até Trient.

Logo depois, antes da gente embarcar no ônibus, uma senhora com roupas típicas se aproximou e cumprimentou a motorista. Se chamava Maria. Ela entrou, se sentou na primeira fileira e começou a conversar com a motorista. A gente se sentou algumas fileiras pra trás, e ficou acompanhando tudo. Pareciam se conhecer a muitos anos. Conversavam como se fossem boas amigas, talvez fossem, não dava pra confirmar.

Col-de-la-Forclaz até o Refuge Les Grands (129.85 de 135 km)

Hôtel Col de la Forclaz. O hotel fica no início da trilha.
Hôtel Col de la Forclaz. O hotel fica no início da trilha.

Experiências a parte, a gente ficou de olho no celular para não perder a parada no Col-de-la-Forclaz. Eram 6h40 e havíamos chegado no ponto inicial da trilha. Chegamos mais cedo do que o previsto, porque não havia ninguém mais nas paradas no meio do caminho ou pessoas para descer. Eram somente a gente, Maria e a motorista. Chegamos com antecedência e o clima não estava muito promissor. Esperava um dia de sol e sem nuvens, mas o que tínhamos era somente neblina e muito frio.

Chalé du Glacier.
Chalé du Glacier.

A trilha no começo era bem tranquila e bem sinalizada. Estava em bom estado de conservação, o que nos surpreendeu um pouco. Ela entrava em um bosque e descia gradativamente até o Chalé du Glacier, mais abaixo no vale de Trient. A neblina e o frio ainda nos acompanhavam. O sol, ia surgindo tímido, e de vez em quando, dava pra ver o céu azul em algumas frestas na neblina.

Passamos o Chalé du Glacier, que por sinal estava fechado, atravessamos uma ponte por cima das corredeiras provenientes do Glaciar de Trient e começamos a subida rumo ao Refuge Les Grands. O plano inicial seria dormir lá para fazer a parte final no dia seguinte, mas tivemos que adaptar e agora, seria somente um ponto a mais antes de chegar em Chamonix.

Quando começamos a subida, o clima começou a mudar rapidamente. As nuvens foram desaparecendo e o sol tomou conta de vez do vale e das montanhas. A descrição perfeita: parecia um cenário de conto de fadas. A caminhada foi totalmente diferente de todas que tivemos durante esse 10 dias de trekking. Foi prazerosa, delicada, limpa, iluminada. Talvez a sensação de último dia tenha ajudado, mas acho que devo dar o crédito a trilha em si.

No plano de fundo, as montanhas foram aparecendo, as nuvens foram desaparecendo por completo e agora a visão era mais do que perfeita. Dava pra ver perfeitamente a Fenêtre d’Arpettre e o Glaciar de Trient, imponente, enorme, brilhante, maravilhoso!

Continuamos a trilha e depois de um verde exuberante e algumas árvores de framboesa (comemos, comemos e comemos), a trilha deu lugar a um paredão de rochas. Não sabíamos muito bem como seria dali pra frente. De repente, uma escadaria construída no paredão de pedras, dava acesso ao Refuge Les Grands. As escadarias eram espaçosas, mas para evitar problemas maiores, cabos de aço foram colocados na rocha para ajudar na subida.

Chegando ao refúgio, entrei, verifiquei se tinha alguém (normalmente tem um guardião), mas não vi sinal de vida. Fui buscar água na fonte a poucos metros dali, e quando voltei, um homem estava falando com Gabriela. Devia ser o guardião do refúgio. Parecia que havia acabado de acordar, estava com um vidro de geleia na mão. Foi quando perguntei:

Reserve já a sua hospedagem usando o Booking.com.

— “Você é o guardião do refúgio?”.

— “Sim. Todos os guardiões são voluntários. Estou sozinho agora, mas estou esperando
algumas pessoas hoje a noite…”.

— “Legal. O dia tá lindo hoje, não?”.

— “Sim, os últimos dias não estavam tão bons.”.

— “A gente estava ontem na Cabane du Mont Fort. O dia estava horrível!”.

— “Cabane du Mont Fort? Como vocês chegaram aqui?”. Perguntou o guardião com cara de surpresa.

— “Saímos da cabana, pegamos um teleférico até Le Châble, pegamos um trem até Martigny, e hoje, de lá, pegamos um ônibus até lá Col-de-la-Forclaz, e por fim, pegamos a trilha até aqui!”. Ufa, chega cansou só de pensar tudo que a gente tinha percorrido em somente 2 dias.

— “Vocês começaram que horas?”, ele perguntou com um certo ceticismo.

— “Por volta das 7 horas”. Eram 9h30 quando chegamos no refúgio. Ele nos elogiou falando que era um excelente tempo para chegar ao refúgio vindos do Col-de-la-Forclaz e continuou elogiando nosso francês (a essa altura do campeonato, qualquer elogio é bem-vindo!). Prosseguiu perguntando:

— “O francês de vocês é muito bom, mas deu pra perceber que vocês não são suíços. De
onde vocês são?”.

Respondi que éramos brasileiros e que morávamos em Montreal. Ele logo disse que estava esperando duas pessoas de Montreal para a noite. Era a gente! Havia falando pra Gabriela que aproveitaria a passagem no refugo pra falar que não ficaríamos por lá como planejado. Pedi desculpas e ele disse que estava esperando os seus pais, a sua namorada e os pais da namorada. O pai dele havia morado em Montreal faziam 50 anos. O mais incrível foi que ele disse que serviriam fondue (a cabana normalmente não serve comida). Seria um noite especial.

Logo bateu um arrependimento. Havíamos perdido uma noite com potencial para ser inesquecível, com pessoas legais e provavelmente assuntos interessantes! Sabe aquelas momentos de viagem incríveis que a gente tem sorte de viver? Foi o que pensei. Mas o plano era chegar em Chamonix. Recarreguei as garrafas de água e chamei o guardião (que se chamava Marc) para se despedir. Disse que a gente se encontrava por aí, e ele desejou boa trilha.

Refuge Les Grands até o Col de Balme (135 de 135 km)

Seguimos viagem, subindo por uma trilha um pouco mais difícil do que o que a gente tinha feito mais cedo. Era mais rochosa, estreita e com alguns trechos mais perigosos, exigindo correntes presas nas rochas pras ajudar na subida. Ela continuaria complicada por vários quilômetros. Os precipícios nos acompanharam por uma boa parte do caminho.

Vai se aventurar por aí? Faça seu seguro de viagem com a WorldNomads.com.

Depois de alguns quilômetros, havíamos entrado finalmente no trecho final que levava até o Col de Balme. O dia estava perfeito, céu claro, bem azul e lindo. Já dava pra ver, mesmo que pequenina, o refúgio que fica na divisa entre à Suíça e a França. Faltavam somente algumas centenas de metros. A expectativa era ver o massivo do Mont Blanc ao chegar, mas não sabia como seria, se ele estaria longe, com nuvens, era imprevisível.

Ao fazer a última subida e olhar pro horizonte, lá estava ele, o Mont Blanc, imponente! O dia não poderia estar melhor! Foi o prêmio de uma jornada que havia começado à 10 dias, lá em Zermatt. A vista do Mont Blanc estava nítida, sem interferência alguma, nenhuma nuvem, perfeita. Não poderia pedir mais nada. Nos sentamos na parte de trás do refúgio, do lado francês provavelmente, tiramos as mochilas e ficamos ali por pelo menos uma hora, comendo e apreciando a vista do Mont Blanc. O dia perfeito!!!!!

Col de Balme até Chamonix (teleférico, ônibus e trem)

O descanso fez a gente perder o ritmo. A gente sabia que de lá existiam alguns teleféricos que iam até Le Tour, mas não sabia como funcionava. O plano inicial era descer tudo andando até Argentière e de lá pegar um ônibus para Chamonix. Decidimos ir pelo teleférico, mas quando chegamos lá, descobrimos que o teleférico era pago e só aceitavam euros. A gente tinha passado 10 dias na Suíça e não tinha um tostão, nem uma moeda de Euro com a gente. Felizmente, a pessoa responsável nos deixou entrar e disse que deveríamos pagar la embaixo, em Le Tour. Descemos a primeira parte naqueles teleférico abertos. A experiência foi bem legal porque era a primeira vez que a gente tinha usado esse tipo de teleférico.

Depois de chegar em Le Tour e pagar a descida do teleférico, pegamos um ônibus até Argentière e quando desci do ônibus, meu joelho parou de funcionar. Imagina descer tudo do Col de Balme até Argentière. Não seria nem de longe uma experiência agradável. A decisão de descer de teleférico tinha sido a melhor que a gente tinha tomado naquele dia.

Chamonix

Em Argentière, fomos até a estação de trem da cidade e compramos tickets até Chamonix. Depois de alguns minutos, pegamos o trem e fomos para Chamonix. O nosso hotel ficava bem pertinho da estação. Fizemos o check-in, subimos para o quarto e descansamos um pouco. Entretanto, a gente queria ter um jantar de comemoração, a final, tínhamos completado a Walker’s Haute Route, mais de 140 quilômetros de trilhas! Isso merecia uma comemoração.

Reserve já a sua hospedagem usando o Booking.com.

Fomos no maior supermercado da cidade, escolhemos um vinho, queijo, defumado, azeitonas e uvas. A escolha do queijo e do defumado foi por sugestão do funcionário do supermercado, um francês. Enquanto ele nos oferecia amostras pra gente provar, ele separava uma pra ele e provava junto com a gente. Era um controle de qualidade ou somente boa vida?

Voltamos par ao quarto, preparamos a mesa, abrimos o vinho e tivemos o melhor jantar de toda a viagem! Jantar merecido. A gente tinha vencido todos os nossos limites, controlado nossas emoções e ansiedade, dito para as montanhas, que a gente era capaz. A Walker’s Haute Route foi um dos maiores desafios que a gente enfrentou até agora. Que venham outros como esse!

Deixe seu comentário!

Seu e-mail não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados *