Pôr do sol no vulcão Telica


O vulcão Telica é um dos vulcões mais ativos da Nicarágua. Sua última erupção havia sido no ano anterior à nossa visita (2016). Não é atoa que no caminho até lá, várias placas mostravam avisos sobre o perigo e as zonas seguras em caso de erupção. Mesmo com todos os avisos e os perigos envolvidos, decidimos encarar o gigante Telica.

Já na agência QuetzalTreckkers, a guia, uma holandesa que cursava turismo, nos recepcionou. Durante as duas horas do percurso, conversamos bastante sobre diversos assuntos. Ela nos disse em determinado momento que todos os guias da agência eram voluntários, sendo a maioria estrangeiros, e que toda a renda da agência era revertida em projetos sociais. Isso me fez refletir bastante, confesso. Como turista, será que estou afetando de forma positiva ou negativa a vida das pessoas por onde passo? Reflexões à parte, era hora encarar o vulcão Telica.

Em 2016, o vulcão entrou em erupção e lançou pedras e lava por vários metros de distância. O aviso não era brincadeira.

O dia estava nublado, chuvoso em sua maior parte. Quase não dava para ver o vulcão. No caminho, a guia apontou para o lado e tentou mostrar o vulcão, mas não deu pra ver muita coisa. Juntando à chuva e à neblina, o maior problema foram os gazes, principalmente o enxofre. No começo da trilha quase não dava para notar. A medida que chegávamos perto da cratera do Telica, ficava mais forte até o momento que minha garganta começou a ficar irritada e a respiração ficou mais complicada.

Borda da cratera do vulcão Telica. A neblina não estava ajudando muito.

Colocamos camisetas no rosto para tentar filtrar o ar, mas não foi o suficiente. Ao chegar à cratera pela primeira vez (voltaríamos nela mais tarde), tirando o cheiro insuportável de ovo podre, não conseguimos ver nada devido aos malditos gases e a neblina que se intensificava ainda mais. Foi um pouco desestimulante. Queríamos ver a lava de qualquer jeito e já estava aceitando que talvez naquele dia não seria possível. Entretanto, como consolo, dava para escutar o barulho da lava. Se posso descrever, seria como uma grande panela de pressão com água fervendo e dentro dessa panela, várias pedras se colidindo com as bordas e entre si produzindo o barulho de choque, bem alto.

O próximo destino seria o local onde veríamos o pôr do sol. Falei certo, veríamos. O céu estava com muita neblina e para ajudar (irônico) havia começado a chover. A guia virou e disse:

— “Se continuar chovendo assim e com essa neblina, o melhor é voltar. Podemos nos perder ou pior, podemos ser atingidos por raios.”

Minutos antes do céu começar a abrir e o pôr do sol aparecer no horizonte.

Fazia todo o sentido, não é? Não dava pra ver muito à alguns metros de distância. Eu era o último da fila e em algum momentos, não dava pra ver Gabriela que estava bem na minha frente. Com relação aos raios, concordei também, éramos como para-raios ambulantes, prontos para ser acertados. A última esperança seria esperar um pouco mais. Aproveitamos para comer, nos hidratar e conversar um pouco mais com a guia. Já tínhamos aceitado o provável retorno, afinal não poderíamos mudar o clima, estava além de nosso alcance, não é mesmo?

Depois de muita paciência, o sol apareceu repentinamente, como por um milagre. O pôr do sol que tanto esperávamos finalmente havia aparecido, estava ali, bem na frente dos nossos olhos. Que presente! Vimos outros grupos que já estavam posicionados para contemplar o evento. A alegria foi tanta que saímos correndo, deixando nossa guia desesperada para trás e nos sentamos em uma pedra perto do desfiladeiro. De lá, observamos por alguns minutos a luz que batia nas montanhas e nuvens e criava uma obra de arte a céu aberto. Nunca vamos nos esquecer disso.

— “Temos que voltar antes que escureça.”, disse a guia, com um ar de preocupada. Mas antes, passaríamos mais uma vez pela cratera do gigante Telica, na esperança de ver alguma coisa.

Entretanto, a neblina ainda cobria toda a cratera. Quem se importava, tínhamos visto um maravilhoso pôr do sol. Já estávamos felizes por isso. Repentinamente, toda a fumaça que encobria o vulcão se foi. Olhamos um para a cara do outro e demos um sorriso. Sabe aquele sorriso espontâneo? Nos sentamos na borda da cratera e ficamos ali por alguns instantes, olhando fixamente para olho vermelho do Telica. Nesse momento até a guia estava maravilhada:

— “Telica, você é f…”, dizia ela com um sorriso imenso no rosto.

Dizia como se o vulcão pudesse ouvir. Por um instante, pensei a mesma coisa. O vulcão parecia ter vontade própria, e só estava aguardando o momento certo para se revelar. Ficamos ali por uns 10 minutos e começamos a descida já na escuridão. Mesmo com a chuva que não parava de cair, a lembrança do Telica fazia tudo ficar mais fácil. Sensação de de dever cumprido. Difícil de explicar. Voltamos para o hostel, onde descansamos para o próximo dia, quem sabe teríamos um dia tão bom quanto o que acabamos de viver.

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Oi, me chamo Marcos Amaral

Viajar pra mim sempre foi mais do que somente ir para outro lugar, tirar fotos ou contar o número de países que já visitei. Pra mim, viajar é viver experiências, sentir sensações únicas. Adoro escrever sobre elas. Mais do que um relato, tento traduzir o que vivi pra fazer você viajar comigo. Sou casado com a Gabriela e hoje, viajamos pelo mundo em busca de experiências únicas.

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