Vulcão Cotopaxi – As impressões sobre a nossa primeira alta montanha


Nos perguntamos sobre as nossas impressões sobre subir o Cotopaxi, nossa primeira alta montanha com seus 5897 metros de altura. O que pensávamos antes, durante e depois da subida. Bom, esse post é o resultado dessa autorreflexão que tivemos em uma conversa no carro voltando de uma sessão de cinema. Confere aí!


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Antes da subida

Antes de subir, nos dias anteriores principalmente, lembro de colocar na balança todos benefícios e os riscos associados ao nosso objetivo. Conseguia citar vários benefícios. E os riscos? Sabia da maioria. Tinha lido vários relatos sobre o que poderia acontecer, dos perigos e de como a montanha poderia tirar nossas vidas em segundos sem mesmo nos avisar. Mas quer saber? Eu fingia que não havia nenhum. Ignorava cada um dizendo pra mim mesmo que se não soubesse aceitá-los, nunca poderia alcançar o topo da montanha. E esse dilema vale para todas as questões da vida, pode acreditar. Foi assim que nos convencemos que deveríamos pelo menos tentar.

No dia anterior ao ataque ao cume, o pensamento mudou um pouco. Ao invés de se enganar e fingir que nada poderia acontecer, passamos a pensar que tínhamos que confiar no nosso treinamento, no nosso equipamento, no nosso guia e em nós mesmos. Esses eram os pilares do sucesso. Claro que tinham muitas outras coisas envolvidas (aclimatação à altitude, por exemplo), mas esses eram os mais importantes. Se não confiássemos no treinamento, no equipamento, no guia e em nós mesmos, nunca poderíamos alcançar o topo, o objetivo.

E era chegado a hora. 23h da noite, 7h de subida e muitas incertezas até o cume do Cotopaxi. Estávamos preparados. Vestimos as roupas (segunda pele, casacos, meias de montanha, balaclava, etc.), colocamos os equipamentos (botas, capacete, harness, etc.) e discutimos os últimos detalhes com o guia. Sim, o guia nessas horas pode ser mais importante do que qualquer outra coisa. O nosso, Ramiro, nos deixou muito tranquilos. Em nenhum momento deixou transparecer nervosismo ou inexperiência. Parecia saber de tudo, de cada pedacinho do vulcão e da rota até o topo. Isso ajudou bastante no quesito sucesso.

Durante a subida

Pensava que durante a subida minha mente sairia do controle. Pensava que várias coisas viriam à cabeça: problemas, ideias, medos, sabe? Pra minha incrível surpresa, não pensava nada além do próximo passo. Passo, passo, virada, troca do bastão e do machado de uma mão para outra, passo, passo, passo, virada… e assim por diante. Estava focado na subida, como nunca em nenhum trekking, hiking ou caminhada que já tinha feito.

Pra não ser injusto, me peguei pensando algumas vezes que depois dos 5200 metros (nossa maior altitude até então), cada passo era um novo recorde pra nós. Mas o pensamento ia logo embora e tudo recomeçava: passo, passo, passo, virada, troca do bastão e do machado de uma mão para outra, passo, passo, passo, virada…

Gabriela pensava mais como se fosse uma reunião importante de trabalho. Você tem medo, fica com frio na barriga, mas vai porque esse é o certo a se fazer. O resultado era o mesmo. Ambos subiam e subiam, sem muita comunicação. Tínhamos que chegar ao cume. Era o que tínhamos planejado e como a reunião importante de trabalho, não tínhamos escolha a não ser subir mais e mais.

Havia lido também que a medida que se aproxima do cume, mais energia e entusiasmo eram notados. Aconteceu exatamente isso. Lá pelas 6h da manhã, o sol começou a aparecer do outro lado da montanha e tudo começou a fica mais claro. Dava pra ver o Cotopaxi de fato e todo o horizonte. Aquilo trouxe mais energia e confiança. Olhando pra cima, faltava pouco pra chegar, dava até pra ver a cabeça de algumas pessoas olhando pra baixo e acenando.

O momento imediatamente antes do cume, àqueles 50 metros finais, foram na minha opinião os melhores de todos. Não dá pra explicar a emoção que vem, de uma vez, e toma conta do corpo todo. Eu até esperava algo do tipo, mas quando você está vivendo a sensação, a coisa é bem diferente.

Começamos a chorar quase no cume. É nessa hora que começa a passar milhões de coisas pela cabeça. Parece que o corpo entra em estado de pausa e tudo que deveria pensar no caminho vem como um bombardeio. Pensei em todo o caminho que nos levou até ali, de toda a preparação, da mudança de hábitos, rotina, vida. Tudo a poucos metros do cume. Foi uma experiência e tanto. Dali pra frente era só felicidade, aproveitar o cume ao máximo possível, cada pedacinho.

Depois da subida

Depois da euforia e da alegria de ter alcançado o objetivo, era hora de descer. Isso ninguém escreve ou não li em nenhum lugar. Quando a mente realiza que o cume é só a metade do caminho, aí as coisas ficam complicadas. Em um primeiro momento, bate um desespero de saber que ainda falta bastante para chegar na segurança do ponto mais baixo. Depois vem o pensamento de aceitação. Sim, não tenho escolha, não é? Ou desço, ou morro aqui em cima congelado. A resposta é óbvia. E finalmente, vem a ação.

A volta duraria menos da metade do tempo que a subida, mas mesmo assim o tempo não passava. O cansaço vem com tudo. Cada músculo que você nem sentia antes na subida, começa a reclamar na descida. O esforço nas pernas é considerável, e agora, podemos ver claramente os abismos e pedaços de gelo gigantes que estão pelo caminho.

A cada passo, o corpo tinha menos energia para continuar. A mente já não funcionava muito bem. Paciência zero. Já na parte final, após tirar os crampões, começamos a descer novamente pela trilha de terra e pedras. Essa foi a parte mais exaustiva. Conseguia ver nitidamente o refúgio, mas o tempo não passava. Estávamos literalmente usando as ultimas reservas de energia. Quando voltei, descobri que tinha perdido mais de 3 quilos.

Conclusão

Alta montanha não é brincadeira. É uma atividade que exige preparação, investimento e muito foco. O Cotopaxi foi a nossa primeira experiência e posso dizer que saímos com vários aprendizados. Um deles é que a mente tem um papel importante no processo. É uma jornada de autoconhecimento que não acaba no cume, no objetivo, mais sim no retorno pra casa. Subir a primeira alta montanha foi só o começo, mas que mudou nossas vidas pra sempre!

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Oi, me chamo Marcos Amaral

Viajar pra mim sempre foi mais do que somente ir para outro lugar, tirar fotos ou contar o número de países que já visitei. Pra mim, viajar é viver experiências, sentir sensações únicas. Adoro escrever sobre elas. Mais do que um relato, tento traduzir o que vivi pra fazer você viajar comigo. Sou casado com a Gabriela e hoje, viajamos pelo mundo em busca de experiências únicas.

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