Vulcão Cotopaxi – O ataque ao cume


Como planejado, acordamos às 23h. Vestimos as inúmeras camadas nas pernas e na parte de cima, colocamos as botas, os capacetes e os demais equipamentos e descemos para tomar um café da manhã. Deixamos o que não era necessário na mochila grande e colocamos o essencial na mochilinha, que ficou ligeiramente pesada, mas confortável para o ataque ao cume do Cotopaxi.


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O café era bem básico. Pão com café e chá. Nada mais, nada menos. Era um lanchinho rápido antes da subida. Tudo preparado, era hora! Não pensava muito no que estávamos fazendo. Estava sério, sabia dos riscos, mas confiava muito no nosso guia Ramiro.

Saímos do refugio José Ribas, ligamos as lanternas e começamos a primeira parte da subida. Seriam uma hora e meia de subida em uma trilha de rochas e terra até chegar ao glacier, onde teríamos que colocar os crampões nas botas. Lembro de olhar para cima constantemente e o que via era somente as estrelas e as lanternas dos grupos que subiram antes de nós. Olhando para o lado, dava pra ver a cidade de Quito no horizonte, imensa e plenamente iluminada. Não dava pra saber qual seria o clima naquela manhã. No horizonte as vezes dava pra ver alguns relâmpagos, mas pareciam distantes. Não nos preocupamos muito.

Chegamos ao ponto do glacier após ultrapassar mais alguns grupos. Paramos, nos sentamos e com a ajuda do Ramiro, colocamos os crampões. O peso nos pés aumentou consideravelmente, mas não tínhamos escolha. Tínhamos que usá-los, pois dali para frente seria só gelo e mais gelo.

Dali pra frente foi só subida. A técnica era simples. Tínhamos que trocar o ice axe (machadinho de gelo) de mão a cada mudança de direção na montanha. O ice axe sempre ficava para dentro da montanha, na direção oposta ao desfiladeiro. A forma de subir com as botas também mudava. Como eram rígidas, não podíamos subir normalmente, com os pés retos, paralelos uns aos outros. Tínhamos que subir lateralmente. Essa troca de posições ajudava um pouco a descansar uma parte dos músculos que não estava sendo usada.

Não dava pra pensar em muita coisa. Era subir, subir, subir e subir. A troca de posições dava uma renovada no pensamento e tudo começava novamente. Não era seguro ficar olhando para a paisagem, mesmo no escuro. Se tirasse o olho da trilha, podíamos facilmente tropeçar e o pior acontecer. Só tivemos tempo de olhar e apreciar um pouco a escuridão da noite quando fazíamos paradas de descanso. Foram poucas, acho que umas 3, a última já quase no cume.

Evitávamos ao máximo perguntar se estávamos perto de chegar. A resposta podia nos desanimar. O que nos deu uma injeção de ânimo foi ver os primeiros raios de luz iluminando o horizonte. No começo o céu está amarelo e foi ficando rosa já pertinho cume, uma verdadeira pintura. O guia dizia que faltava pouco. A subida final foi intensa. A inclinação era enorme. Sem dúvida era a parte mais difícil de todo o trajeto. Em um dado momento, já era possível ver algumas cabecinhas lá no alto. Foi quando Ramiro disse: “Última troca”…

Inacreditável não?

Como assim? Já estávamos na parte final? Tínhamos começado a uma altitude de 4800 (refúgio) até incríveis 5800 e lá vai pedrada. Era um feito pra nós. Comecei a chorar lembrando do quão difícil e exaustivo foi o caminho até ali. meses e meses de treinamento, de mudança de hábitos, era ali que planejamos chegar e estávamos quase lá.

Dá pra ver a cabecinha lá no alto! Estávamos bem perto...

Não dava pra segurar o choro. A emoção era imensa. Os raios de sol foram aumentando de intensidade e a inclinação diminuindo. O cume havia chegado. 5897 metros de altura e uma cratera imensa a nossa direita. Várias pessoas já estavam lá, tirando fotos e contemplando o topo do vulcão Cotopaxi. Abracei fortemente Gabriela. Vi o sorriso imenso no seu rosto. Ficamos abraçados por vários segundos. Era difícil explicar o que estávamos sentindo. Foi uma das coisas mais intensas de nossas vidas. Foram 6 horas de subida e lá estávamos, no topo do maior vulcão ativo do Equador, o Cotopaxi.

O guia nos comprimentos, soutou as cordas e deu o sinal verde para aproveitarmos o cume. Tivemos nossos 20 minutos de gloria. Tiramos várias fotos e aproveitamos também para renovar as energias comendo alguma coisa antes de descer.

Cratera do Cotopaxi! O vulcão ainda está ativo e a última erupção foi no ano de 2015.
Ainda fico emocionado vendo essas fotos...
Nosso guia Ramiro Garrido. Não poderíamos ter tido um guia melhor do que ele.
Nosso guia Ramiro Garrido (@Ramiro4Garrido). Não poderíamos ter tido um guia melhor do que ele.

Mais sobre a agência e o guia

Sim! Se você quer subir ao cume do Cotopaxi, você tem necessariamente que fechar o tour com alguma agência ou diretamente com um guia. Usamos os serviços da Cumbre Tours, localizada em Quito. Tudo foi resolvido por e-mail e todas as perguntas que tínhamos foram respondidas rapidamente pela Adriana. A escolha do guia pela agência também foi a melhor. O nosso guia se chamava Ramiro Garrido, um dos guias mais experientes e profissionais do Equador, membro da ASEGUIM (e podemos dizer que é verdade). Pra valores e mais detalhes, você pode contatar a agência pelo site www.cumbretours.com. A agência também intermediou o aluguel do equipamento que não tínhamos. No dia que o guia nos pegou, ele já estava com tudo no carro. Se você quer saber mais sobre os equipamentos que usamos, preparamos um artigo exclusivo sobre isso (Vulcão Cotopaxi – Vestimenta e equipamentos).

Era hora de descer. Fato que havíamos esquecido por alguns minutos. Se chegamos até aqui, temos que ter energia para voltar, não é mesmo? Foi aí que tudo fico mais difícil. A descida foi mais exigente. As pernas que já estavam um pouco cansadas, agora estavam sendo usadas a todo o vapor. Como a descida era inclinada, tínhamos que fincar cada passo no gelo para ter certeza que não cairíamos. Dessa vez, eu estava “guiando” o grupo. Com o sol batendo, deu pra ver tudo que tínhamos subido e o quão alto estávamos. Dava pra ver as cravasses no gelo, bem pertinho da trilha.

Não dava pra tirar o olho da trilha. Era estreita e qualquer movimento errado, algo ruim poderia acontecer.

No caminho de volta, passamos pelo guia Alejo e o seu grupo. Ele começou a falar em português, parabenizando “é isso ai brasileiros!”. Rimos bastante e cumprimentamos cada um do grupo dizendo que faltava pouco e que eles estavam bem pertinho do topo do Cotopaxi. Um simples ato como esse poderia ser capaz de dar a energia necessária para alcançar o cume.

Sobra do Cotopaxi e ao fundo, os Ilinizas.
Último descanso e última foto da descida. Depois disso, foi muito esforço, mas conseguimos!

Horas depois, e já quase sem energia, havíamos chegado no ponto onde poderíamos tirar os crampões. O guia tirou as cordas, e foi na frente, dizendo para descermos bem lentamente a trilha de terra que tudo ficaria bem. Como tive que olhar para o chão o tempo todo para saber onde estava pisando, meu pescoço endureceu e a descida até o refugio foi no mínimo uma punição pra mim. Descia alguns metros, levantava o pescoço com dificuldade e gritava pra aliviar a dor.

Chegando ao refúgio, arrumamos as mochilas e comemos um pequeno café da manhã. O refúgio já estava repleto de turistas que fazem a subida do estacionamento para conhecer o lugar. Olhavam para a gente como se tivessem muitas perguntas. Estávamos descabelados e cansados, mas sorrindo, sem se importar com ninguém. Ramiro virou e nos parabenizou dizendo que mesmo daquele jeito, ainda estávamos bem. Era muito otimismo!

Reabastecidos, pegamos nossas coisas e começamos a descida ao estacionamento, onde entramos no carro e encerramos a nossa mais louca aventura até aqui: subir em um vulcão ativo com 5897 metros de altura, chamado Cotopaxi!

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Oi, me chamo Marcos Amaral

Viajar pra mim sempre foi mais do que somente ir para outro lugar, tirar fotos ou contar o número de países que já visitei. Pra mim, viajar é viver experiências, sentir sensações únicas. Adoro escrever sobre elas. Mais do que um relato, tento traduzir o que vivi pra fazer você viajar comigo. Sou casado com a Gabriela e hoje, viajamos pelo mundo em busca de experiências únicas.

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