Pra inaugurar a nossa sessão de entrevistas do site Férias Contadas, nada melhor do que entrevistar uma pessoa que realmente fez diferença nas nossas vidas. Ramiro Garrido, nascido no Equador, guia de montanha membro da ASEGUIM / UIAGM foi o nosso guia de montanha durante a subida do vulcão Cotopaxi, o maior vulcão ativo do Equador! Nos levou ao cume a incríveis 5896 metros de altura com sucesso e segurança! Fica ligado na entrevista porque ele tem muita coisa legal pra dizer.


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Como você se tornou um guia de montanha?

Iniciei minhas primeiras excursões em meu clube de montanha no Colégio San Gabriel de Quito, Equador, em 1991. Tinha apenas 11 anos de idade. Ao sair do colégio, minha primeira expedição internacional foi na Bolívia em 1998. Não consegui chegar a nenhum cume porque me senti mal com a altitude, embora já tivesse subido o Cotopaxi em 1994, com 14 anos, e o Illiniza Sur e o Antisana, ambos com 17 anos. Em 2000 e 2001 foram minhas primeiras experiências na Cordilheira Branca, no Peru. E em 2003 nos Alpes da Alemanha, Áustria e Itália.

Estudei Comunicação Social em Quito e quando estava prestes a engressar na carreira, terminando minha tese de graduação, um amigo guia de montanha me convidou para ajudá-lo a guiar um grupo. No final da viagem comecei a minha formação como guia aspirante e desde então me dedico mais a montanha do que a Comunicação.

Como é ser um guia de montanha no Equador?

Ser guia de montanha é uma profissão muito enriquecedora pelas pessoas com quem você interage e para si mesmo. Te permite ser um embaixador do país, no caso do Equador, perante as pessoas que você conhece e que desejam descobrir os Andes.

Vulcão Cotopaxi - Fonte:  @Ramiro4Garrido
Vulcão Cotopaxi – Fonte: @Ramiro4Garrido

Ter nascido no Equador é um privilégio pela quantidade de montanhas para subir e também porque se pode viver disso. As facilidades logísticas te permitem que você suba uma montanha de cinco mil ou seis mil metros em dois dias, e depois vá para a Amazônia ou para a costa do Pacífico, em questão de horas.

QUAIS SÃO OS MAIORES DESAFIOS de um guia de montanha?

“O primeiro desafio de um guia de montanha profissional é facilitar uma experiência de alto risco.”

Ramiro Garrido

O primeiro desafio de um guia de montanha profissional é facilitar uma experiência de alto risco. As decisões da jornada devem fazer com que o cume não seja o objetivo final, mas sim um aprendizado. Os alpinistas não pagam simplesmente para ir ao cume. Eles pagam para subir com segurança. Chegar ao ponto mais alto de uma montanha é a cereja do bolo.

Fonte: @Ramiro4Garrido

Outro desafio de um guia profissional é também criar, em poucos dias, a confiança necessária para que os que estão sob sua responsabilidade se sintam à vontade com ele. Isso é necessário, pois, estão confiando suas vidas em você através de uma corda e correndo atrás de um sonho de subir ao cume e voltar inteiros para poder contar o que fizeram.

Qual foi a sua primeira alta montanha? Como foi a experiência?

Foi o Cotopaxi. Tinha 14 anos e foi uma expedição que eu não fui convidado. Tinha muita vontade de subir e talvez não tivesse a experiência nem a preparação suficientes para tal. Os responsáveis do grupo eram outros meninos, um de 17 anos, o “mais velho”, e outro de 15 anos. Subi entre os dois, amarrado na corda, sendo puxado por eles cada vez que adormecia devido a falta de sono.

Me custou muito para chegar e quando me dei por vencido, um dos meus colegas me disse que restava muito pouco. E foi assim que, depois de sete horas e meia, cheguei ao cume do Cotopaxi em um dia claro, com algum vento e gelo acumulado no meu gorro de lã. Em 1994, havia poucos telefones celulares, mas um dos meus colegas trouxe um e eu pude dizer ao meu pai que eu tinha conseguido.

Cume do Vulcão Cotopaxi - Fonte:  @Ramiro4Garrido
Cume do Vulcão Cotopaxi – Fonte: @Ramiro4Garrido

Você já viveu alguma experiência surpreendente / engraçada em alta montanha?

Várias, por exemplo, uma vez, descansávamos no cume do El Corazón, uma montanha que não chega a cinco mil metros de altura, e um condor nos sobrevoou por vários minutos. Certamente estava em busca de comida. É impressionante ter um pássaro tão imponente tão perto e bem no topo da montanha.

Me lembro também da primeira vez que alcancei o cume do Cayambe. Foi na décima tentativa, em 2002. Nas nove anteriores, as razões para não chegar ao cume foram várias, dentre elas o mau tempo e o mal de altitude sofrido por colegas ou até mesmo por mim. Mas na vez que tivemos sucesso, eu estava com dois amigos da Alemanha, como parte de um intercâmbio de escalada. Ainda não era guia comercial. Meu grupo liderou a subida e deixei sinalizações pelo caminho para o resto dos alpinistas. Eles não entenderam direito as sinalizações, terminando cerca de 50 metros abaixo do cume, do outro lado da última fenda. Ficaram com muita raiva de não ter chegado.

Fonte: @Ramiro4Garrido

Outra vez subíamos o El Pisco, uma montanha muito conhecida no Peru que não apresenta grandes complicações técnicas. Fomos sozinhos com três amigos do meu clube de montanha e, enquanto a gente escalava, uma forte nevasca cobriu toda a rota. Não havíamos deixado nenhuma sinalização e não tínhamos GPS. Tudo ficou branco! Havia deixado somente um par de varas como referência. Levamos muito mais tempo do que o planejado para retomar o caminho até as tendas e finalmente deixamos a geleira, após subir ao cume, vivos, mas exaustos.

Qual foi o seu maior desafio como guia?

“Quando você sobe uma montanha guiando alguém, você estabelece uma relação de confiança, alpinista-guia e vice-versa.”

Ramiro Garrido

Quando você sobe uma montanha guiando alguém, você estabelece uma relação de confiança, alpinista-guia e vice-versa. Você quase sempre percebe quando alguém que diz que se sente bem está mentindo. Mas às vezes não, e foi o que aconteceu comigo à 6268 metros, no Chimborazo, a montanha mais alta do Equador. Havíamos chegado ao cume por volta das 7 horas, horário habitual, e a garota disse que se sentia bem e forte para a descida. Entretanto, ao iniciar a descida, ela se sentou e não quis mais se levantar. Disse que não poderia dar mais um passo se quer.

Chimborazo - Fonte:  @Ramiro4Garrido
Chimborazo – Fonte: @Ramiro4Garrido

A descida foi tão longa quanto a subida, o que complicou as coisas porque terminamos esgotados. Quanto mais tempo em altitude, mais cansado você fica. Foi necessário dormir um pouco no refúgio antes de iniciar o retorno à Quito. Mesmo que não tenha havido nenhum inconveniente na montanha, o cansaço poderia ter causado um acidente indesejado. Felizmente isso não aconteceu. O maior desafio não foi chegar ao topo, mas retornar com segurança, primeiro para o refúgio, depois para casa.

O que é preciso para se chegar ao cume com sucesso?

“O cume é uma terra a ser cultivada, um caminho a percorrer no qual o processo é tão importante quanto o resultado final.”

Ramiro Garrido
Nosso guia Ramiro Garrido. Não poderíamos ter tido um guia melhor do que ele.
Ramiro e a gente no cume do Cotopaxi, Equador.

Você precisa estar suficientemente motivado e convencido a querer fazê-lo, e com isso, elaborar um plano de treinamento, aclimatação e estratégia. Os três com o mesmo nível de importância. O cume é uma terra a ser cultivada, um caminho a percorrer no qual o processo é tão importante quanto o resultado final. Muitas vezes o aprendizado com esse processo traz mais satisfação do que o cume em si. Isso te mostra que você é capaz de fazer algo que você se propõe a fazer, como comprar uma casa que você sempre quis, viajar para algum lugar muito distante ou até mesmo escalar uma montanha que você achava impossível. Na realidade, o cume está na sua cabeça.

Quais são os principais erros que se pode cometer em alta montanha?

Subestimar a montanha e superestimar sua força física. Tem que abordar cada nova escalada com respeito. A maioria dos acidentes ocorre na descida, quando as pessoas baixam a guarda e acreditam que a parte mais difícil já passou. Você tem que estar alerta do início ao fim. Você também tem que estar bem equipado, mas o melhor equipamento técnico é inútil se você não sabe como usá-lo. Antes de comprar algo, se pergunte: eu realmente preciso disso? Será mais barato do que alugar? Eu sei como usá-lo?

Falando das suas experIÊncias, qual foi a mais incrível e por quê?

Foram os Himalaias. Em 2010 tive a oportunidade de ir à Pumori, a filha do Everest. Uma montanha de mais de sete mil metros que me disse não. Está localizada no vale de Khumbu, no Nepal. Para chegar lá, você deve pousar no aeroporto mais perigoso do mundo, em Lukla.

Subestimei minhas capacidades. Já era guia de montanha a vários anos e acreditei que nada poderia dar errado e acabei ficando doente com a altitude. Tive que regressar ao segundo acampamento, a 6500 metros, em um momento em que ainda podia me mover sozinho e ainda não era um fardo para os meus colegas. Éramos 10 amigos de montanha e dois alcançaram o cume. Nós trabalhamos em equipe fixando cordas e carregando tudo para cima. Não tivemos a ajuda de sherpas e no acampamento-base, podíamos ver todos os dias a beleza de um lindo espetáculo, o sonho de todo alpinista se tornado realidade, era a vista do Lhotse, Nuptse e do Everest.

“Abrir a porta da barraca e observar o Everest todos os dias era uma contemplação que valia a pena ter chegado ali.”

Ramiro Garrido

Mais o que mais me marcou foi quando chegamos ao acampamento-base a 5300 metros, onde ficamos por quase um mês. Não entendi porque estava tão familiarizado com o lugar. Ao voltar para casa, lembrei que tinha um quebra-cabeça na mente que eu havia montado anos antes, com a vista do Khala Patthar e a visão belíssima do Pumori, Everest, Lhotse e Nupste. Abrir a porta da barraca e observar o Everest todos os dias era uma contemplação que valia a pena ter chegado ali.

Falando do EVEREST, você pensa em escalar a maior montanha do mundo?

Por trabalho sim, mas como projeto pessoal, creio que exista outras rotas e montanhas menos conhecidas com as quais se pode dar a volta ao mundo pelo mesmo preço do Everest. É verdade que o lugar mais alto no mundo é único, mas é a motivação que leva você até lá que fará com que você goste de uma forma particular.

O que você acha da comercialização do Everest e do alpinismo em geral?

É quando entramos no campo da ética dos alpinistas. As viagens de montanha são um negócio complicado. Elas dependem de variáveis incontroláveis, como o fator tempo ou mesmo o fator humano. Não é algo seguro. Se você for honesto consigo mesmo, saberá que está preparado para mais um grande desafio, mais distante, mais difícil e inóspito.

Ao mesmo tempo a natureza humana está repleta de riscos, de se lançar no desconhecido e fazer o impossível. Que seja pelo menos com um percusso adequado, a preparação suficiente e a motivação autêntica. Quando o comercial vai além do humano, não faz sentido deixar alguém morrer ao seu lado para alcançar o topo da montanha mais alta.

O que você diria para as pessoas que querem começar a fazer montanhismo?

Que o façam com respeito, que o mais simples seja o mais inteligente, que tenham paciência e que os desafios surjam de pouco a pouco. Você tem que sonhar alto, passo a passo. Mas tenha cuidado, porque escalar montanhas é um vício sem retorno. Que subam com o coração.

Fonte: @Ramiro4Garrido

Quais são os seus próximos planos / projetos?

Quero subir a montanha mais bela do Equador: El Altar. Voltar à Cordilheira Blanca em 2020 e subir algumas montanhas que estão pendentes fazem 19 anos: El Huascarán, Artesonraju, Quitaraju e Chopicalqui. Tudo isso combinando a vida familiar com minha esposa e duas filhas com o fascínio pelas montanhas.