Ninh Binh em duas rodas: Hang Mua, Pôr do Sol e um sorriso aliviado


Fazia muito calor. O vento era quente, desanimador. O sol não parecia querer dar uma trégua naquela dia. Resolvemos então fazer um pequeno pitstop no hotel antes de visitar Hang Mua, há alguns quilômetros de distância de lá. O plano era infalível: esperar o calor diminuir, descansar, partir no final da tarde e contemplar o pôr do sol lá de cima.

Era hora! Chave na ignição e… nada. A moto havia sucumbido ao calor! Fiquei alguns segundos sem saber o que fazer. Múltiplas tentativas depois, conseguimos fazer a pequenina ligar. Fomos então para a cidade onde trocamos por uma mais “nova”.

Scooter na estrada novamente. Todo contratempo que tivemos com a scooter não era nada a partir daquele momento. Búfalos e patos aproveitavam as últimas horas de sol para se alimentar nas plantações de arroz recém-colhidas. Cada centímetro percorrido era uma obra de arte à céu aberto, Uma foto sem moldura, arte em movimento. Costumo exaltar bastante e tentar trazer uma visão mais poetizada do lugar. Aqui, o lugar era pra mim a própria poesia.

A beleza de Ninh Binh e de suas montanhas deu lugar à momentos de tensão na chegada à Hang Mua. Bem na entrada, quase no estacionamento, fomos forçados a parar por um grupo de pessoas. De forma bem agressiva, eles colocaram as mãos na scooter e impediram qualquer tipo de fuga. A única forma seria passar por cima. Essa não seria uma opção, pelo menos por enquanto.

Meu coração palpitava a mil. Foi a primeira vez que senti medo em uma viagem. Se eram capazes de agir assim, do que mais seriam capazes? Tentei acalmar a situação com algumas palavras de efeito, que todo brasileiro em situações de perigo costuma usar:

— “Somos brasileiros, amigos, Ronaldinho…” e assim por diante, mas não adiantou. Eles continuaram segurando a nossa scooter.

Outras pessoas se juntaram. Cheguei a ver até um senhor de uns 60 anos, com uma cara de raiva, olhando para nós como se quisesse dizer que a nossa teimosia em não estacionar ali seria quase um desrespeito.

— “Passo na volta e compro uma água, pode ser?”.

Foi tiro e queda. Como mágica, saíram da frente da scooter e assim pudemos estacionar (gratuitamente) em Hang Mua. Como se não bastasse, a mesma gangue acabara de parar outra vítima, dessa vez, uma família com duas crianças pequenas. Imaginei o que tinham passado minutos atrás e comecei a gesticular ao pobre coitado pai que tentava sem esperança negociar sua passagem. Depois de conseguir passar, o pai me agradeceu com muito alívio. De alguma forma acho que ajudei àquela família a ter um dia melhor.

Passado o sufoco da chegada, ainda um pouco abalados pelo ocorrido, começamos a subida em Hang Mua. O calor ainda era intenso, mesmo sendo finalzinho de tarde. Os degraus eram irregulares e em alguns momentos, um pouco traiçoeiros. Em um determinado momento, passamos por uma bifurcação. Eram dois viewpoints! Não sabia se estaríamos em condições de desbravar ambos. Decisão que seria tomada depois. 

Fomos em direção ao maior deles, que tem vista para os canais de Tam Coc. Que vista… Diferente de tudo que já tinha visto até ali. Lá embaixo nos canais, dava pra ver os barquinhos repletos de turistas atravessando o pequeno rio que sumia entra as inúmeras cavernas. A luz já não era tão intensa nesse momento, mas ressaltava na medida certa o verde das plantações e montanhas e o azul do céu. Era definitivamente um lugar perfeito.

Decidimos encarar o segundo mirante. De lá, poderíamos ter uma visão melhor do sol, que se punha lentamente, como se esperasse por nós. Chegamos cansados, mas a experiência valeu a pena. Arrumamos um cantinho entre as pedras, e ficamos ali, apreciando o pôr do sol, em silêncio junto com os demais. 

Na saída, passamos novamente pela gangue, mas dessa vez acompanhados de outras motos e acelerando como se não houvesse amanhã. Apesar disso, fomos parados por um outro senhor mais a frente. Seria novamente uma extorsão? Estava tão cansado que nem relutei. Paramos e esperamos pelo pior.

Foi então que um som estranho veio do começo da rua. Não dava pra ver direito o que era, mas aumentava a cada segundo. Era um quack, quacK, quaCK, quACK, qUACK, QUACK! Quando percebemos, milhares de patos enfileirados passavam por nós, conduzidos por uma senhora vietnamita, muito provavelmente voltando para casa, pois, era hora de dormir. Estavam todos sincronizados.

Olhei para Gabriela e dei um sorriso de alívio, quase com lagrimas. Havíamos passado por poucas e boas naquele dia e aquele simples acontecimento, uma multidão de patos, me fez rir novamente, esquecer o passado e pensar no presente. Mais uma vez, Ninh Binh nos surpreendeu.

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Oi, me chamo Marcos Amaral

Viajar pra mim sempre foi mais do que somente ir para outro lugar, tirar fotos ou contar o número de países que já visitei. Pra mim, viajar é viver experiências, sentir sensações únicas. Adoro escrever sobre elas. Mais do que um relato, tento traduzir o que vivi pra fazer você viajar comigo. Sou casado com a Gabriela e hoje, viajamos pelo mundo em busca de experiências únicas.

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